Depois de criar mais uma grande confusão,
Malasartes ia fugindo da fúria de um capitão
Que botou, atrás do malandro, sua tropa na perseguição.
E foi grande o problema do nosso herói espertalhão.
Vendo a tropa se aproximando e sem saber como escapar,
Malasartes teve uma idéia das boas, pois ficou a pensar.
Era uma idéia daquelas. Boa pra danar!
Pra acabar a perseguição e a tropa toda enganar.
Com braços e olhos pra cima, ele ficou num descampado.
Andando de um jeito engraçado. Andando de um para o outro lado.
Como se aguardasse, o pobre coitado,
Algo que viesse do céu! Do céu fosse enviado!
A tropa deu com aquele amarelo ao chegar ao descampado.
O camarada com os braços para cima. Andando de um para o outro lado.
Que coisa mais maluca! E ainda com o ar preocupado.
Parece coisa de doido! Coisa de abilolado!
O chefe da tropa, sem entender nada, na frente de todos se colocou.
Vendo o Malasartes olhando pro céu, o homem logo perguntou:
– Que diacho é isso, amarelo? Será que você endoidou?
Não adianta mais fugir que a nossa perseguição acabou!
Respondendo ao chefe da tropa, disse Pedro sem sorrir:
- Um boi, do céu, vai cair! Um boi, do céu, vai cair!
Dizia o amarelo sem parecer que queria fugir.
Com ar muito amuado. Não parecia fingir.
O chefe da tropa também ficou preocupado
O amarelo parecia sério e com jeito enfezado.
– Do que você está falando? – perguntou o chefe pasmado.
A resposta foi logo dada, mas não do jeito esperado:
– Encontrei um boi parado quando fugia de sua perseguição.
E o boi estava pastando. Comendo sua refeição.
No meio do descampado o que fiz não tem perdão.
Joguei o boi para alto como se fosse um balão!
Uma coisa sem igual essa força que usei,
E lá pro alto, pro o céu, o pobre boi joguei!
Esqueço que essa força, de meu pai herdei.
Ele tinha tanta força que eu nem sei!
Malasartes ainda andava de um para o outro lado,
Os dois olhos no céu e com o braço esticado
Mas estava muito sério. De um jeito jamais pensado.
Falando sem parar, mas muito compenetrado.
– Esquecendo a força que tenho, joguei o boi para o ar!
Agora tenho que apanhá-lo. Quero a queda aparar!
Para o pobre do bichinho não vir a se machucar!
Por causa de minha força, ele pode se estrepar!
O chefe da tropa para o profundo azul do céu olhou.
Não viu do boi nem a sombra. E assim logo pensou:
“Se ele tem tamanha força que pro céu um boi jogou
Vai derrotar a tropa toda! É só um soco e acabou!
Eu devo sair de fininho pra não sofrer tal humilhação.
Será melhor, com certeza, enfrentar a bronca do capitão.
Não quero levar uma surra desse amarelo fortão!
É melhor fugir depressa do que apanhar como um cão!”
Com cautela, o chefe da tropa para trás foi andando.
E toda a tropa foi, como o chefe, bem devagar recuando.
Todos com muito medo. Logo a tropa foi se dispersando.
Quando Malasartes deu por si, estava sozinho falando.
Pedro baixou os braços e parou de falar.
Foi embora contente, sua viagem tinha que continuar.
Fazer mais estripulias, outras artes aprontar,
Pra viver mais aventuras e novas terras encontrar!
Essa história acabou.
Mas outra vai começar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isto ninguém vai negar...
Adaptação de Augusto Pessôa