AUGUSTO PESSÔA - CONTADOR DE HISTÓRIAS - (BRASIL)

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Ator, Cenógrafo, Figurinista, Arte Educador Dramaturgo e Contador de Histórias. Bacharelado em Artes Cênicas (Habilitação em Interpretação e Habilitação em Cenografia) pela UNI-RIO - Universidade do Rio de Janeiro.

A PANQUECA FUGITIVA, O RESMUNGÃO E OUTROS CONTOS NÓRDICOS

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HISTÓRIAS DE NATAL

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livro de contos populares adaptados e ilustrados por Augusto Pessõa - Ed. Escrita Fina (2010)

HISTÓRIAS DE BRUXAS - livro

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sábado, 28 de março de 2009

O GUERREIRO INVISÍVEL

As Margens de uma grande baía vivia, há muito tempo, um grande guerreiro indígena. Ele tinha um estranho e maravilhoso poder: o de tornar-se invisível. Era conhecido junto ao seu povo como Vento Forte, o Invisível. Morava com a irmã numa tenda perto do mar. Muitas donzelas queriam casar com ele, porém o guerreiro só se casaria com a primeira que fosse capaz de vê-lo chegar em casa à noite. Muitas tentaram, mas ninguém conseguia.
Vento forte usava um inteligente artifício para testar a veracidade daquelas que tentavam conquistá-lo. Todos os dias, ao entardecer, a irmã passeava pela praia com uma das jovens que desejava ser esposa do guerreiro. A irmã conseguia vê-lo sempre, mas só ela e mais ninguém. Sob a luz do crepúsculo, ao vê-lo aproximar-se de casa, a irmã perguntava à pretendente :
- Você está conseguindo vê-lo?
E todas mentiam :
- Estou, sim!
A irmã, então perguntava :
- Com o quê ele está puxando o trenó?
E elas respondiam:
- Com uma pele de alce...
- Com um cajado...
- Com uma corda”...
E a irmã logo via que era mentira. Muitas foram as que tentaram e muitas foram as que mentiram.
Vivia na aldeia um grande cacique com três filhas. A mãe das meninas morrera fazia muito tempo. A caçula era linda, amável e todos gostavam dela. Por causa disso, as irmãs mais velhas passaram a ter ciúmes dos seus encantos. A tratavam muito mal. Davam roupas esfarrapadas para que ela tivesse má aparência, cortaram seus longos cabelos negros e jogaram em cima da jovem as brasas de uma fogueira para que ela ficasse marcada. Mentiram ao pai, dizendo que ela própria tomara tais atitudes. Mas a jovem tinha paciência e mantinha o bom coração, continuando a fazer seus trabalhos com alegria e disposição.
Como outras jovens da tribo, as filhas mais velhas do chefe tentaram conquistar Vento Forte. Mas, como as outras, mentiram e o guerreiro manteve-se afastado delas.
Um dia, a filha mais nova do chefe, com seus andrajos e cicatrizes, resolveu procurar Vento Forte. Remendou as roupas com pedaços de casca das árvores, colocou os poucos ornamentos que possuía e foi tentar ver o Guerreiro Invisível. Suas irmãs caçoaram dela e no seu caminho até a praia, todos fizeram pilhéria da moça maltrapilha. Mas ela prosseguiu em silêncio.
A irmã de Vento Forte recebeu a jovem com amabilidade e, ao baixar o crepúsculo, levou-a a praia.
O guerreiro não tardou a chegar em casa, puxando o trenó. E a irmã perguntou se a jovem conseguia vê-lo.
- Não! – respondeu a jovem e a irmã do guerreiro se surpreendeu muito, pois ela estava dizendo a verdade.
A irmã de Vento Forte tornou a perguntar se a jovem conseguia vê-lo agora.
- Estou, sim! Ele é maravilhoso! Está puxando seu trenó com o Arco-Íris ! – respondeu a moça, bastante assustada.
E a irmã do guerreiro perguntou de que era feito o arco.
- Da Via Láctea! – respondeu a jovem
O guerreiro, por ter a jovem respondido a verdade da primeira vez, tornou-se visível. A irmã de Vento Forte levou, então, a jovem filha do cacique para casa, preparou um banho para ela, e todas as cicatrizes do rosto e do corpo desapareceram. Seus cabelos cresceram novamente, negros como as asas dos corvos. A moça ganhou bonitas roupas para vestir e ricos adereços. A irmã do guerreiro convidou a jovem a tomar o lugar de esposa na tenda. E logo Vento Forte entrou, indo sentar-se ao seu lado, e dizendo que ela era agora sua noiva.
No dia seguinte, ela se tornou sua esposa, e passou a ajudá-lo nos grandes feitos. Suas irmãs mais velhas ficaram furiosas e nunca chegaram a saber o que aconteceu. Mas Vento Forte, que sabia da crueldade das duas, resolveu castigá-las. Utilizando seu enorme poder; transformou-as em álamos (que são árvores com flores pequenas, casca rugosa e que fornecem madeira alva, leve e macia). Desde então, as folhas dos álamos tremem sempre, com medo do Vento Forte chegar, mesmo que ele venha tranqüilo, pois recordam de sua força e poder.

CONTO POPULAR DOS ÍNDIOS AMERICANOS

RATAZANA

Era um amor lindo. Pareciam dois namorados apesar dos vários anos de casamento. Ele a cobria de presentes e ela fazia tudo para agradá-lo. Viviam felizes num apartamento pequeno na parte velha da cidade. Ela não entendia como a vizinha de baixo reclamava tanto daquele lugar. Para ela, só o fato de estar junto com o marido, era o paraíso. Ele concordava. Não precisavam nem conversar. Apenas um olhar dela dizia fundo no seu coração. Um olhar fascinante. Como se trocassem intensas juras de amor sem palavras.
Não tinham filhos, mas isso não os incomodava. Eles se bastavam. Apenas os olhares bastavam.
Um dia ele saiu mais cedo do trabalho e foi correndo para casa. Queria fazer uma surpresa para a mulher. Ao chegar encontrou-a caída na cozinha. Era um desmaio. O primeiro de muitos que iam acontecer. Foram ao médico e a sentença foi fatal. O médico não sabia diagnosticar ao certo o que era, mas ela não teria muitos anos de vida. Talvez, meses.
Eles resistiram bravamente. Uma parenta foi chamada para tomar conta dela. A mulher relutou, mas teve que aceitar. Os desmaios eram constantes e não poderia ficar sozinha. Ela definhava. Não era, nem de longe, a esposa atuante e atenciosa de antes. Só os olhos é que ainda mantinham as eternas juras de amor.
Ela sugeriu que o marido já pensasse numa substituta. Ao que ele repeliu horrorizado. Iriam viver e morrer juntos. Ele jurou.
Mas não pode cumprir a jura. Em pouco tempo ela morreu. O que mais o entristeceu foi o fato de não ter visto sua mulher morrer. Não ter escutado a última palavra. Estava no trabalho e recebeu a notícia. Não pode ver o último olhar de sua amada.
O caixão, o velório, o enterro, tudo de primeira. Flores. Muitas flores. Nada parecia satisfazê-lo. Queria tudo grandioso. Tão grande quanto o seu amor. O túmulo era uma homenagem a esse amor. Era imenso e branco. Mas não estava satisfeito. Não tinha visto o último olhar. Só isso. A última jura de amor ele não viu.
O tempo passou e o homem foi levando. Uma tristeza profunda se abateu sobre o pobre. Ia do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Mais nada. Às vezes esquecido da morte da mulher comprava presentes para ela. Flores e bombons. E ao chegar em casa chorava abraçado aos presentes.
Nos finais de semana andava pelas ruas. Não agüentava ficar em casa. Vagava por aí a procura do último olhar.
Foi a um centro espírita para ver se conseguia alguma comunicação com a esposa. Tinha certeza que ela queria dar a última palavra ou, pelo menos, o último olhar. Mas ao entrar no centro percebeu a besteira que estava fazendo. A mulher era muito católica e jamais apareceria naquele lugar. Ele tinha certeza disso.
Sua vida já não tinha mais sentido. Só pensava no último olhar. Sentia a presença da mulher, mas não podia nem vê-la, nem ouvi-la. Apesar disso, ela estava ali. Perto dele.
Certa noite, seu desespero era tão grande, que foi para rua pensando em dar um fim naquilo. Sentia a presença da mulher com muita força. Sentou num banco de praça e entre lágrimas pedia que a mulher aparecesse. Com qualquer forma. Não importava. Contanto que ela lhe desse o último olhar. E nada. Ele já estava desistindo. Pensava em ir embora. Aquilo era uma loucura, não ia levar a lugar nenhum. De repente, passou uma ratazana na sua frente. Gorda e suja. Ela ia passando direto, mas parou e voltou. Ficou na frente dele e o olhava nos olhos. O olhar! O mesmo olhar! Era isso? Uma ratazana? Foi essa a forma que a mulher conseguiu para se comunicar? Tudo bem. Os dois ficaram parados. Ele e a ratazana. Olhavam-se nos olhos. Tentou pegá-la, mas ela fugiu. Ele não se importou. Estava feliz. Finalmente conseguiu ver o último olhar.
Hoje, podemos vê-lo na praça, todas as noites, dando comida aos ratos. Alimentando os ratos, ele procura a sua ratazana. A sua amada.

CONTO DE AUGUSTO PESSÔA

sexta-feira, 20 de março de 2009

MALASARTES E O URUBU MÁGICO

O Pedro Malasartes caminhava por uma estrada de terra batida quando viu um urubu. Na beira da estrada, o bicho estava com a asa quebrada. Parado, quietinho, com cara de triste. O Pedro ficou com pena. Cuidou da asa do bicho e depois colocou o urubu em seu ombro. A ave preta aceitou o novo poleiro e o Malasartes continuou o seu caminho. Daí a pouco o amarelo começou a sentir fome e ele não tinha nada pra comer, nem dinheiro pra comprar. Viu um camarada que trabalhava num roçado e se aproximou:
Tarde, amigo!
O camarada quando viu o Malasartes com o urubu no ombro tomou um susto:
Que é isso? Aonde você vai com esse bicho?
E o Malasartes na maior calma:
Esse urubu? Encontrei o bichinho com a asa quebrada e eu tô cuidando dele.
Você é um bom homem! Mas o que deseja?
Meu amigo, será que não tem aí um pedaço de pão que dê pra matar minha fome?
E o outro respondeu:
Ih... desculpe, amigo! Acabei de comer minha marmita. Num sobrou nem um grãozinho de arroz.
E o camarada mostrou a latinha limpinha. E o Malasartes perguntou:
O amigo sabe onde eu posso arrumar um prato de comida?
Aqui por essas bandas... é difícil... Eu até trago a minha marmita.
O Malasartes viu uma casa mais adiante e continuou a conversa apontando para o lugar:
E naquela casa? Será que alguém me arrumava um pratinho?
O outro deu uma risadinha:
Ali é que o amigo não consegue nada!
Porque?
Mora ali uma mulher muito da gulosa. Ela passa o dia todo comendo e não dá nada pra ninguém. Nem para o marido!
Nem para o marido? Como é isso?
Ela inventou que só sabe fazer uma sopinha aguada e é isso que o pobre come todo dia. Enquanto o infeliz trabalha, ela come do bom e do melhor. Quando ele chega em casa, ela diz que está sem fome e dá para ele a tal sopa aguada.
E como é que o amigo sabe disso?
As notícias correm. Todo mundo sabe disso aqui. Só o infeliz é que não sabe. E ela ainda fica comendo de tocaia numa janela pra “mode” de vê se o marido chega de surpresa. Mas nem isso o coitado faz. O camarada é que nem um relógio. Volta pra casa todo dia na hora certinha.
E onde que esse pobre trabalha?
Num roçado mais adiante. Trabalha de sol a sol. E a mulher fica em casa só comendo. O amigo pode até tentar, mas acho que ali não vai conseguir nem uma migalha de pão.
O Malasartes coçou a cabeça e disse para o outro:
Eu vou tentar assim mesmo.
O Malasartes se despediu e fui até a casa com o urubu no seu ombro. De longe ele viu a mulher gulosa e gorda de tocaia na janela devorando uma grande coxa de galinha assada. O Pedro bateu na porta e a gulosa veio abrir de mau humor.
O que você quer?
A senhora não teria um pratinho de comida para dar a um pobre?
Eu vou dar a minha boa comida pra um amarelo sujo que nem você? E ainda por cima com esse urubu no ombro! Sai daqui mau agouro!
A mulher disse isso e bateu a porta na cara do Malasartes. O Pedro ficou pensando e teve uma idéia. Foi procurar o marido da gulosa lá no seu roçado. E encontrou o homem magrinho que dava pena de ver. O malandro se aproximou:
Boa tarde, amigo!
Tarde! – respondeu o outro sem parar de trabalhar. E o Malasartes continuou:
O senhor mora naquela casa assim... assim... que tem uma senhora?
Sou eu mesmo. É minha mulher.
O homem disse isso, virou-se para o Malasartes e tomou um susto:
Que é isso?
O Malasartes se fez de desentendido:
O quê?
Esse urubu no seu ombro?
Ah, isso... É meu amigo urubu. E olha, é por causa dele que eu vim lhe falar. O senhor pode não acreditar, mas esse urubu é mágico. E ele mandou uma mensagem aqui pra minha cabeça que a sua mulher está tendo uma aflição.
O homem ficou assustado:
Mas como é isso, meu amigo?
Malasartes tranqüilizou o outro:
Não se preocupe. O urubu me disse que é só uma afliçãozinha à toa. Coisa de mulher. Sabe como é? Não carece preocupação. Se o amigo perguntar pra sua mulher, ela não deve nem saber porque está com isso. Mas é bom o senhor ir lá dar uma olhada, porque... sabe como é?... mulher gosta dessas coisas. Desses agrados.
O sujeito ficou meio preocupado:
Bom... ainda bem... vou seguir seu conselho. Vou terminar aqui esse serviço e vou até lá dar uma olhada.
E o Malasartes se despediu:
Então faça isso... Fique com Deus, meu amigo. Até uma próxima!
Até!
O Pedro saiu e deixou o homem coçando a cabeça. O malandro voltou pra casa da gulosa e ficou escondido vendo o que a mulher ia fazer. Não demorou muito o marido apareceu na estrada. E vinha esbaforido. A mulher gulosa deu um salto e começou esconder toda a comida dentro de um armário grande que tinha na sala. E o Malasartes vendo tudo. Ela escondeu garrafa de vinho, bolo, galinha assada, carne ensopada, arroz branco e um monte de comidas. Mas fez isso tão depressa que ficou botando os bofes pela boca. Quando o marido entrou em casa encontrou a mulher sem ar.
Mulher! O que houve?
A gulosa não conseguia nem falar e o marido continuou:
Bem que um sujeito me avisou que você estava assim com essa aflição em casa. Quando for assim tem que mandar me chamar.
A mulher arregalou o olho, mas o marido disse:
Mas pode ficar tranqüila que o sujeito disse que você nem sabe porque está sentindo isso.
A gorda gulosa respirou aliviada, mas foi por pouco tempo. Foi ela dar uma suspirada que bateram na porta. Era o Malasartes com o urubu no ombro.
Desculpe incomodar, mas fiquei preocupado e vim ver se estava tudo bem.
A mulher ficou branca quando viu o sorriso amarelo do malandro, mas o marido ficou muito satisfeito.
Olha aí, mulher! Esse foi o sujeito que eu lhe falei! E esse urubu dele é mágico! Não é uma beleza?
A gulosa nem falava. Só sacudia a cabeça afirmativamente. E o homem perguntou ao Pedro:
Como é que eu posso agradecer tamanha bondade?
O Malasartes aumentou o sorriso.
Bom se o amigo tiver um pratinho de comida para acabar com minha fome, eu ficarei muito grato.
Com certeza! Mas olha, aqui a comida é bem simples. A gente só come uma sopinha magra. Minha mulher não sabe fazer outra coisa e eu respeito isso. Que jeito, né?
O Malasartes arreganhou o sorriso.
Mas sendo assim, eu é que quero lhe dar um presente. Como o amigo sabe, meu urubu é mágico. Eu nem gosto de fazer isso pra não cansar o bichinho. Mas acho que depois desse susto, nós merecemos uma boa refeição, né?
O Malasartes disse isso, passou a mão pelo urubu que estava no seu ombro e disse bem alto:
Urubu, quero que apareça muita comida dentro daquele armário grande ali!
O malandro disse isso e apontou para o armário. Por coincidência, o urubu fez um barulho esquisito e o Malasartes falou para o homem:
Pode abrir aquele armário que está cheio de comida ali!
A gulosa não estava nem mais branca. Estava verde. E o marido deu uma risada.
Que é isso, meu amigo! Aqui em casa só tem sopinha. Não tem muita comida.
Pois abra o armário – sugeriu o Pedro.
O marido fez menção de abrir, mas a mulher deu um salto e abriu o armário. O marido tomou um susto e a gulosa fingiu que se espantava. Era muita comida. O marido nem acreditava.
Eita, que é verdade! Mas esse urubu é maravilhoso! Vamos comer meu amigo!
A mulher teve que servir a comida para o marido e para o Malasartes. Até o urubu comeu. A gulosa comeu só um pouquinho, olhando com ódio para o Malasartes pelo canto do olho. Terminada a comilança, o marido falou para o Pedro:
É, meu amigo, tinha até esquecido como é comer bem assim!
Mas o senhor não come bem porque não quer?
Como assim? – quis saber o homem.
O Malasartes olhou sorrindo para a gulosa. A mulher arregalou os olhos achando que o malandro ia contar toda a história, mas o Pedro perguntou ao homem:
O amigo tem mãe?
Tenho, sim senhor!
E ela cozinha bem?
Cozinha como ninguém! Uma comida que é uma delícia!
Pois convide sua mãe para morar com vocês e ensinar sua mulher a cozinhar! Aposto que sua esposa não vai se incomodar. Vai? – perguntou o amarelo para a gulosa.
A mulher respondeu entre dentes:
Não. Vai ser ótimo!
O homem ficou feliz:
Que boa idéia! Não tinha pensando nisso. E minha mãe pode ficar tomando conta de minha mulher para ela não ter mais aflição. O que o amigo acha?
Mas que idéia boa. Nem tinha pensado nisso! – respondeu o amarelo.
E o homem, meio sem jeito, falou:
Olha, o amigo me ajudou muito, mas eu queria lhe pedir mais um favor: sei que isso é coisa que não se pede mas... venda esse urubu pra mim! Pago o preço que o senhor pedir. Esse bicho é maravilhoso!
A gulosa não falava nada, mas por dentro estava explodindo de raiva. O Malasartes não queria vender o bicho.
Mas eu gosto tanto do meu bichinho...
Venda! – insistiu o homem – Pago bom preço por ele.
O homem insistiu tanto... ofereceu uma quantia tão boa... que não teve jeito: o amarelo vendeu o bicho. Mas antes falou assim:
Eu vendo, mas o amigo tem que jurar que vai cuidar bem do meu bichinho.
Pode ficar tranqüilo. Minha mulher vai dar comida na boca do urubu todos os dias. E não vai ser sopa aguada. Vai ser a comida gostosa que minha mãe vai ensinar ela fazer. Pode ficar sossegado.
O Malasartes deu um sorriso:
Agora eu fico tranqüilo. E vejo que sua mulher está tão feliz que nem tem palavras para agradecer.
A mulher ficou com tanta raiva que desatou a chorar. E o marido completou:
Desculpe, meu amigo. Minha mulher é muito emotiva. É a felicidade!
Eu imagino! Que a felicidade reine nessa casa!
O Pedro Malasartes disse isso, se despediu e depois foi embora com a barriga e o bolso cheios.
E o urubu nunca mais fez nenhuma mágica, mas foi bem tratado até o último dos seus dias.

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

sábado, 7 de março de 2009

PORQUE OS HOMENS NÃO RECEBEM FLORES? (2)

Uma flor dada por uma amiga especial. Queria conservar as pétalas num livro ou, como Clarice, guardá-las na gaveta de roupas. Descobriu que a rosa era de pano.
Será eterna, pensou, eternamente com perfume de amiga especial.

O BROCADO MARAVILHOSO

Uma velha viúva sustentava seus três filhos tecendo lindos brocados. Panos maravilhosos com animais e flores que pareciam ter vida.
Um dia ela foi à cidade vender seus trabalhos e viu numa loja um quadro maravilhoso com uma casa enorme em meio a um belo jardim. Tão encantada ficou com aquela imagem que, em vez de comprar alimentos com o dinheiro que recebera, comprou o quadro. Quando voltou para sua humilde cabana, mostrou aos filhos o que tinha comprado, dizendo:
- Ainda vamos morar num lugar assim!
O mais velho respondeu:
- Só se for em sonho!
O filho do meio acrescentou:
- Ou talvez numa outra vida!
Com pena da mãe, o caçula sugeriu:
- Por que você não tece um brocado com essa imagem? Assim, enquanto estiver trabalhando, vai se sentir como se morasse mesmo num lugar tão bonito!
Os dois mais velhos não faziam nada em casa. Só o mais novo trabalhava ajudando nos afazeres da casa. E a mãe tecia sem parar.
De noite a viúva trabalhava à luz do fogo e só abandonava o tear quando o sono a vencia por completo. Depois de um ano, cansada, a pobre mulher chorou. As lágrimas caíram sobre o trabalho e teceram um riacho e um lago. Depois de dois anos, verteu sangue dos olhos e onde ele caiu teceu um sol e várias flores rubras. Depois de três anos concluiu sua obra.
A paisagem do brocado era linda: a enorme casa tinha paredes azuis, colunas vermelhas e telhado verde. O jardim florido abrigava no centro um lago cheio de peixes. No pomar as árvores estavam carregadas de frutos e os pássaros voavam entre elas. Mais ao longe se estendiam viçosos arrozais e trigais. Um riacho cintilante corria pelo campo, e um sol radioso iluminava todo o belo cenário.
Querendo ver melhor o brocado, a viúva o levou para fora. Olhava embevecida para sua obra, quando um vento forte o arrancou de suas mãos e o carregou pelos ares. Desesperada ela pediu aos filhos:
- Encontrem meu trabalho, por favor! Para mim aquele brocado é a própria vida!
O filho mais velho calçou as sandálias e rumou para o Leste, na direção do vento. Caminhou durante um mês até chegar a uma caverna que tinha um cavalo de pedra bem na entrada. A estátua tinha a boca aberta como se quisesse comer os frutos vermelhos de uma árvore próxima. De dentro da caverna saiu uma velha bruxa. O rapaz ficou com medo e a bruxa perguntou:
- O que você quer aqui?
- Procuro o brocado de minha mãe!
- As fadas da Montanha do Sol o roubaram – disse a bruxa – Para encontrá-lo, arranque dois de seus dentes e coloque-os na boca do cavalo de pedra. O cavalo vai deixar de ser pedra e vai comer aqueles frutos. Depois ele o levará até a Montanha do Sol, passando antes pela Montanha do Fogo e pelo Mar de Gelo. Mas, se você tentar se proteger quando atravessar a Montanha do Fogo, as chamas o reduzirão a cinzas! Se tremer ao cruzar o Mar de Gelo, o frio o transformará numa estátua!
Só de ouvir isso o rapaz já estava tremendo de medo. Então a bruxa deu para ele uma caixa cheia de moedas de ouro e disse assim:
- Volte para casa! Você não tem coragem para enfrentar os perigos!
Ele pegou a caixa, mas não voltou para casa. Não queria dividir o dinheiro com sua família.
Algum tempo depois o segundo filho da viúva partiu para encontrar o brocado. Como o primogênito, foi até a caverna e encontrou a bruxa. Ficou apavorado com a idéia de enfrentar o fogo e o gelo. Ganhou a caixa cheia de moedas de ouro e nunca mais voltou para casa.
O caçula também acabou partindo. Não queria deixar a mãe sozinha, pois ela estava doente e fraca, mas a viúva insistiu tanto que o rapaz não teve como recusar. Como seus irmãos foi até a caverna e ouviu atentamente as instruções da bruxa. A velha ofereceu a caixa com moedas, mas o rapaz disse:
- Obrigado, mas preciso encontrar o brocado maravilhoso de minha mãe!
Sem sombra de medo arrancou dois de seus próprios dentes e os colocou na boca do cavalo de pedra, que imediatamente ganhou vida. Depois de comer os frutos, o animal levou o caçula até a Montanha do Fogo. O rapaz não se protegeu diante das chamas, como tampouco tremeu ao cruzar o Mar de Gelo. Por fim subiu ao topo da Montanha do Sol, onde encontrou um castelo. Entrou e viu as fadas num salão copiando a obra de sua mãe. Ele pediu o brocado de volta e as fadas responderam:
- Quando terminarmos de copiar nós o devolveremos!
Ao anoitecer elas penduraram no teto uma pérola tão luminosa quanto o sol e concluíram o trabalho. Satisfeitas, elas foram cuidar de outros afazeres. Mas a fadinha mais nova ficou no salão e, antes de devolver a obra original para o rapaz, nela bordou sua própria imagem. Com o brocado nas mãos, o moço saiu cavalgando a todo o galope. Atravessou o Mar de Gelo, transpôs a Montanha do Fogo e voltou à caverna. Ali a bruxa tirou os dois dentes da boca do cavalo e os recolocou na boca de seu legítimo dono, petrificando novamente o animal. O moço seguiu viagem e, assim que, avistou sua cabana, apressou o passo, chamando:
- Mamãe, mamãe! Venha ver!
A viúva estava na cama, frágil como um caniço, mas fez um esforço imenso e conseguiu se arrastar até a porta. Ao ver o caçula a mulher ficou completamente curada. O rapaz desdobrou o brocado para mostrá-lo para mãe. Uma brisa suave soprou e estendeu pelos ares o tecido maravilhoso até fazê-lo cobrir aldeias e campos a perder de vista. A humilde cabana desapareceu, e o desenho que a viúva tecera ao longo de três anos se tornou realidade. E junto com o cenário magnífico surgiu uma linda moça que disse:
- Sou uma fada da Montanha do Sol! Bordei minha imagem no brocado porquê queria morar com vocês neste lugar maravilhoso!
E a viúva respondeu:
- Seja bem-vinda!
Pouco depois o rapaz se casou com a fadinha e nunca mais a feliz família deixou o belo casarão.
Um dia dois mendigos se aproximaram da magnífica propriedade. De longe eles a reconheceram como a imagem tecida pela viúva. Os dois afastaram-se, envergonhados. Eram os filhos mais velhos, que tinham gasto tolamente todo o dinheiro que ganharam.
CONTO ORIENTAL - ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

PORQUE OS HOMENS NÃO RECEBEM FLORES (1)

Recebeu o pequeno presente e a moça falou baixinho no seu ouvido:
- É macela enrolada num fio de meu cabelo! Tem um cheiro gostosinho...
Ele olhou para o minúsculo buquê e o pedaço de cabelo vermelho que o prendia. Por instantes, sentiu o perfume da florzinha brotando do coração.

A RÃ E O BOI - VÍDEO

A RÃ E O BOI - VÍDEO
Apresentação de Augusto Pessôa no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2010. Clique na imagem e assista a história

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ
Clique na imagem e assista a hitória

UMA APOSTA (VÍDEO)

UMA APOSTA (VÍDEO)
Conto de Artur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

LIVROS LEGAIS

  • GRAMÁTICA DA FANTASIA de Gianni Rodari - Summus Editorial.
  • GUARDADOS DO CORAÇÃO – Memorial para Contadores de Histórias de Francisco Gregório Filho - Editora Amais.
  • FÁBULAS ITALIANAS de Ítalo Calvino - Editora Companhia das Letras
  • DICIONÁRIO DE FOLCLORE BRASILEIRO de Câmara Cascudo - Editora Itatiaia
  • VASOS SAGRADOS de Maria Inez do Espírito Santo - Ed Rocco
  • MEUS CONTOS AFRICANOS - seleção de Nelson Mandela - Ed Martins
  • LENDAS BRASILEIRAS de Camara Cascudo - Ediouro
  • CONTOS TRADICIONAIS DO BRASIL de Camara Cascudo - Ed Itatiaia
  • CONTOS POPULARES DO BRASIL de Silvio Romero - Ed Itatiaia

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)
Peça teatral baseada no conto popular MARIA BORRALHEIRA com Augusto Pessôa e Rodrigo Lima. Direção Rubens Lima Junior. Clique na foto e assista a um trecho da peça.

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)
Clique na imagem e veja a resenha do livro FELIZES PARA SEMPRE

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2009

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)
Conto Africano. Clique na imagem e assista ahistória

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Cliuqe na imagem e assista a um trecho do espetáculo

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo.

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assita a um trecho do espetáculo

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação.

O MARIDO FIEL - VÍDEO

O MARIDO FIEL - VÍDEO
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa. Clique na imagem e assista a história.

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)
conto popular adaptado por Augusto Pessôa. CLIQUE NA IMAGEM E ASSISTA AO VÍDEO

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)
Cena do espetáculo A MOURA TORTA. Clique na foto e veja a cena

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo em cartaz no teatro do Jockey - Gávea

JABUTI

JABUTI
Apresentação no Simpósio Internacional de contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a um trecho da apresentação

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça  (VÍDEO)
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)
Clique na imagem e veja um clipe do espetáculo

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)
conto de Nelson Rodrigues. Adaptação e narração de Augusto Pessôa

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)
Peça baseada no conto popular O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (2003). Clique na foto e veja um trecho do espetáculo.

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)
Conto de Arur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)
Contação de Histórias. Clique na imagem e assista a contação.

MENINA FACEIRA

MENINA FACEIRA
Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no Instituto Moreira Salles - set 2009. Clique na imagem e veja a apresentação.

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)
NA CASA DE SEU PEDRÃO. Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE CONTADORES DE HISTÓRIAS - SESC RJ (2008). Clique na imagem e veja a apresentação

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)
O Rei Doente do Mal de Amores - apresentação no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a cena.

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)
Apresentação do espetáculo O REI DOENTE DO MALDE AMORES no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a apresentação

MALASARTES! (VÍDEO)

MALASARTES! (VÍDEO)
Peça baseada nas histórias de Pedro Malasartes. Clique na foto e veja um trecho do espetáculo

O JABUTI E A FRUTA

O JABUTI E A FRUTA
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a história

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Crítica do espetáculo publicada no JORNAL DO BRASIL

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica sobre o espetáculo

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica do espetáculo.

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro
Livro de Augusto Pessôa publicado pela Editora ROCCO (2007)

FELIZES PARA SEMPRE

FELIZES PARA SEMPRE
Livro com adaptações de Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2003)

CONTOS DE HUMOR

CONTOS DE HUMOR
Contos de Artur Azevedo - organização Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2008)

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL
CONTANDO HISTÓRIAS NA BIBLIOTECA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS