AUGUSTO PESSÔA - CONTADOR DE HISTÓRIAS - (BRASIL)

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Ator, Cenógrafo, Figurinista, Arte Educador Dramaturgo e Contador de Histórias. Bacharelado em Artes Cênicas (Habilitação em Interpretação e Habilitação em Cenografia) pela UNI-RIO - Universidade do Rio de Janeiro.

A PANQUECA FUGITIVA, O RESMUNGÃO E OUTROS CONTOS NÓRDICOS

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HISTÓRIAS DE NATAL

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livro de contos populares adaptados e ilustrados por Augusto Pessõa - Ed. Escrita Fina (2010)

HISTÓRIAS DE BRUXAS - livro

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sábado, 23 de maio de 2009

COURO DE PIOLHO

Há muito tempo atrás, num reino distante, uma linda Princesa era penteada por sua ama. Até que a ama achou, nos longos cabelos da Princesa, um piolho. A Princesa ficou admirada com aquilo. Resolveu guardar o bicho numa caixinha. O tempo foi passando, e o piolho crescendo na caixinha. A Princesa teve que passar o bicho para uma caixa maior... e para outra... e outra... até que o bicho ficou enorme. Mostrou o piolho ao Rei. E o monarca teve uma idéia. Matou o bicho e arrancou o couro. Mandou fazer um banquinho com o couro e disse para a rainha e a filha guardarem segredo. Depois baixou um decreto: Aquele que adivinhasse de que bicho era o couro daquele banquinho ganharia a mão da Princesa.
A notícia se espalhou pelo reino e por outros reinos. Primeiro vieram os filhos dos reis, mas nenhum deles descobriu. Depois, os filhos dos nobres, mas também não descobriram. Em seguida, os filhos dos ricos... os filhos dos menos ricos, mas nenhum deles descobriu. Vieram então, os pobres e os miseráveis, mas eles também não descobriam. A Princesa, que de início gostou da brincadeira, já estava ficando chateada. Tinha medo de não arrumar casamento.
Perto dali, vivia uma velha bem velha com um filho com cara de bobo. O rapaz que se chamava João, decidiu ir ao reino tentar adivinhar o enigma. A velha desaconselhou-o, mas o rapaz estava decidido. A velha então preparou uma merenda para o filho e ele partiu. Andou bastante, até que veio a noite. Estava se preparando para comer a merenda quando apareceu um velho. O velho pediu um pouco de comida e João convidou-o para sentar e comer. Os dois comeram à vontade. Depois João armou sua rede e ofereceu para o velho dormir. João dormiria ali pelo chão mesmo. O velho agradeceu e disse que tinha poderes mágicos. Tirou três fiapos de sua roupa e entregou a João dizendo que, quando ele precisasse, era só queimar um dos fiapos e talvez seu desejo se realizasse. Depois foi embora. João guardou os fiapos e dormiu.
No dia seguinte, continuou viagem até chegar ao castelo. Na porta do castelo havia uma fila de mendigos. João entrou na fila. Iam de quatro em quatro para tentar adivinhar o enigma. Até que chegou a vez de João e outros três. Entraram na sala do trono e viram o Rei, a Rainha e a Princesa cercada de amas. O Rei tomou a frente e perguntou:
- Então, de que bicho é o couro desse banquinho?
O primeiro mendigo disse:
- É couro de rato!
- Não é!
O segundo disse:
- É couro de lagartixa!
- Não é!
O terceiro disse:
- É couro de tatu!
- Não é!
João foi para perto da janela, pegou um dos fiapos e queimou. Palavras não foram ditas, mas na cabeça de João surgiu a imagem de um piolho. João achou estranho, mas aproximou-se do Rei e disse:
- É couro de piolho!
- E é! Acertou!!
O Rei ficou satisfeito. Mas a Princesa não gostou nada daquilo. Ela não queria casar com aquele sujeito com cara de bobo que nem bonito era. A jovem falou com Rei. O monarca chamou João e disse:
- João, está tudo muito certo, mas antes de casar com a Princesa você terá que cumprir umas tarefas. Terá que levar ao pasto cem coelhos. E no final do dia me trazer os coelhos todos sem perder nenhum.
João aceitou. Ele sabia que levar cem coelhos ao pasto era o mesmo que levar ao pasto cem moscas. Impossível. Mas...
No dia seguinte, entregaram os coelhos a João. Quando abriram a porta do castelo os coelhos todos fugiram. João foi andando tranqüilamente até o pasto. Quando chegou lá, pegou o segundo fiapo e queimou. Palavras não foram ditas, mas apareceu na frente de João uma flautinha. O rapaz soprou a flauta e os cem coelhos apareceram na sua frente enfileirados como guardas. João dispersou os coelhos e esperou o final do dia. Na hora certa, foi até ao castelo. Quando chegou lá, tocou a flautinha e os cem coelhos apareceram enfileirados como guardas. João chamou e Rei e disse:
- Estão aí os coelhos. Pode contá-los.
E estavam lá os cem bichos enfileirados. A Princesa reclamou de novo com o Rei. E o monarca mandou que João repetisse a operação no dia seguinte.
E assim foi. No dia seguinte, João saiu com seus coelhos. Mas a Princesa mandou que uma de suas amas pegasse um coelho do cara de bobo. A moça foi e pediu o coelho. João lhe disse:
- Dar, não dou! Mas vendo! Vendo por um beijo!
A moça ficou ofendida. Disse ser recatada e que aquilo era um absurdo. Mas como era ordem da Princesa deu o beijo em João. O rapaz entregou o coelho e ama saiu correndo. Quando estava chegando no castelo, João soprou a flautinha. O bicho esperneou para um lado... esperneou para o outro... e escapou da moça. A Princesa quando soube ficou danada. Mandou outra ama para realizar a tarefa. A outra moça foi e pediu o coelho. João lhe disse:
- Dar, não dou! Mas vendo! Vendo por dois beijos!
A moça ficou ofendida. Disse que era um abuso e coisa e tal. Mas como era ordem da Princesa deu os beijos em João. O rapaz entregou o coelho e a ama saiu correndo. Quando estava perto do castelo, João tocou a flautinha. O bicho esperneou para um lado... para outro... e escapou da moça. A Princesa quando soube ficou mais danada ainda e disse:
- Quem quer vai, quem não quer manda!!
E foi pedir o coelho a João. O rapaz lhe disse:
- Dar, não dou! Nem vendo! Mas troco! Troco por sua blusa!
A Princesa ficou muito ofendida. Era um acinte. Mas João estava decidido. A Princesa foi para trás de uma árvore, tirou sua blusa e se enrolou no xale. Entregou a blusa a João que lhe deu um coelho. A jovem correu, mas quando estava chegando no castelo, João soprou a flautinha. O bicho esperneou por um lado... por outro... e escapou. No final do dia, João foi para o castelo levando os coelhos. A Princesa já não estava achando o João tão feio assim. Mas era teimosa. E depois da história da blusa não queria nada com ele. E o Rei falou para João:
- Está tudo muito bom. Mas você vai realizar mais uma tarefa. Na hora da ceia, eu quero um saco cheio de mentiras.
João aceitou. Apesar de saber que juntar mentiras num saco e o mesmo que contar todas as estrelas do céu. Impossível. Mas... João foi para seu quarto e queimou o último fiapo. Dessa vez palavras foram ditas, mas no ouvido de João. Na hora da ceia, foi entregue a João um saco vazio. Estavam lá o Rei, a Rainha e a Princesa cercada de suas amas. João pegou o saco, ficou na frente da primeira ama e disse:
- Conheço uma ama da Princesa que comprou um coelho por um beijo!
- É mentira!
Gritou a ama. João fez como se colhesse uma fruta e mostrou ao Rei.
- Já começou a ficar cheio, Majestade!
Foi até a segunda ama e disse:
- Conheço uma ama da Princesa que comprou um coelho por dois beijos!
- É mentira!!
Gritou a ama. João repetiu e gesto e mostrou o saco ao Rei.
- Já está pela metade, Majestade!
Foi até a Princesa e disse:
- Conheço uma Princesa que trocou sua blusa por um coelho!
- É mentira!!!
Gritou a Princesa. João repetiu o gesto e mostrou o saco ao Rei.
- Pronto! O saco está cheio de mentiras, Majestade!
O Rei, já sem saber o que fazer, disse:
- Agora só depende da Princesa...
A Princesa, que já não achava o rapaz tão feio, ficou encantada com esperteza de João. Olhou para um lado... olhou para outro... e aceitou. João casou-se com a Princesa e fizeram uma grande festa de casamento. Eu estive lá, na festa. E trouxe umas compotas para vocês. Mas na ladeira do Conclins tropecei e quebrei meu nariz.
Adaptação de Augusto Pessôa do conto popular
“COURO DE PIOLHO”

MALASARTES E A PANELA MÁGICA

O Malasartes ficou sem dinheiro depois de uma farra danada.
Restou só o suficiente para comprar uma panela usada.
E na primeira viagem que fez, sentindo uma fome enfezada
O malandro decidiu usar a panela, lá no meio da estrada.
Com uns gravetos secos, o amarelo fez uma fogueira.
Tirou uma batata e um toucinho de dentro da algibeira.
Encheu sua panela com água que pegou numa cachoeira.
E começou a cozinhar a comida, sem fazer muita zoeira.
Quando o mirrado almoço abrindo fervura estava,
O Pedro percebeu que um comboio se aproximava.
Teve uma idéia daquelas, que muito o animava,
Para enganar o comboio que uma grande carga levava.
Abriu depressa um buraco e dentro as brasas e os tições colocou.
Cobriu tudo com a areia e a panela que fervia ele em cima deixou.
Ficou esperando até que o comboio carregado se aproximou.
Vendo aquela cena estranha, o grupo de comboieiros logo parou.
O comboio ficou espantado com o que via
Sem fogo nenhum aquela panela fervia.
Uma mágica grande era o que parecia
Uma panela assim todo mundo queria
E perguntaram ao Malasartes que mágica era aquela
Sem fogo, nem braseiro nenhum, fervia a panela.
O amarelo sem pressa, mexendo na tal gamela,
Contou para os comboieiros essa grande balela:
“É uma panela mágica que ganhei de minha mãezinha.
Não carece de ter fogo, pois ela mesma se esquenta sozinha.
É uma coisa muito útil quando a gente não tem cozinha.
Dá pra fazer um ensopado e depois comer com farinha!”
O grupo de comboieiro queria ter aquela preciosidade.
Na viagem, um objeto daqueles, teria muita utilidade.
Queriam saber o preço e perguntaram com vontade.
Mas o malandro, comendo seu almoço, inventou uma saudade:
“Ah, essa panela não dou, nem vendo por nada
Ganhei essa panela de minha velha mãe, já finada.
Olho para a panela e vejo minha mãezinha retratada.
Não posso vender uma relíquia que por ela me foi dada”.
Mas a panela foi pelos comboieiros tantas vezes pedida
E era tão grande a soma em dinheiro oferecida.
Que o malandro amarelo sem ter outra saída
Vendeu a panela dada por sua mãe querida.
Os comboieiros felizes seguiram pela estrada
Achando que levavam uma panela encantada.
E o Malasartes foi para o outro lado viver nova zoada.
Eita amarelo esperto! Esse é da pá virada!
Essa história acabou.
Mas outra vai começar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isso ninguém vai negar...
Quem souber conte outra.
Pode continuar.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A PRINCESA DO SONO SEM FIM

Há muito tempo atrás. Num reino distante morava uma rainha muito malvada. A danada tinha a sina de lobisomem. Comia gente! Uma coisa horrível!!
O príncipe seu filho era um moço bom e valente. O rapaz vivia triste com essa sina de sua mãe. Sua única alegria era ir conversar com um velho, muito velhinho, que morava longe do palácio, perto de uma floresta sombria.
O velhinho armava uma rede na varanda para o príncipe descansar e o rapaz passava horas e horas ouvindo as histórias do velho amigo.
Um dia, o príncipe estava lá deitado e viu no alto das árvores um pano vermelho. Parecia uma bandeira. Ele perguntou o que era aquilo e o velho contou:
- Aquilo é um palácio encantado. Meu avô contou a meu pai, que contou pra mim. E a história é assim:
Era um reino, onde o rei e a rainha vivam tristes porque não tinham filhos. Eles sonhavam com um herdeiro e a Rainha pedia com tanta vontade... e fazia tantas promessas... que um dia conseguiu. Ficou grávida e nasceu uma menina bonita como o sol. Todo o dia tinha festa no palácio por causa do nascimento da princesinha. Para o batizado o rei convidou todas as fadas que moravam por perto. Só não convidou a fada velha porque ninguém sabia onde ela morava. Alguns até achavam que ela já tinha morrido. As fadas vieram todas e já estavam na mesa do banquete quando a fada velha apareceu resmungando muito. Soltava fogo pelas ventas de tanta raiva por não ter sido convidada. A fada mais nova reparou na zanga da fada velha e mais do que depressa se escondeu atrás de uma cortina. Depois do banquete as fadas deram os seus presentes. Fadaram boas sinas e dons maravilhosos para a princesinha. Cada uma dizia a coisa mais bonita do mundo:
- Eu te fado que sejas linda como a luz do sol. – disse a fada azul.
- Eu te fado que sejas boa como o amor de mãe! – disse a fada rosa
- Eu te fado que sejas rica como um tesouro! – disse a fada dourada.
- Eu te fado com a sabedoria dos mais sábios! – disse a fada amarela.
E assim foram todas dizendo belezas e o rei ficava cada vez mais feliz, ao lado da rainha que tinha a princesinha nos braços. Quando todas as fadas que estavam na mesa deram os seus presentes, a fada velha se levantou e com a fala cheia de mágoa disse:
Não sei porque tão boas sinas para a princesinha já que ela nem vai aproveitar!
Ninguém entendeu o que ela queria dizer. E erguendo os braços a fada velha deu a sina:
- Ouçam bem, todos vocês: a princesa crescerá em graça e formosura! Amada por todos que a cercam! Mas... até a idade de dezesseis anos! Quando completar a décima sexta primavera ela picará o dedo no fuso de uma roca de fiar e morrerá. Sem remédio para isso!
Disse o que disse e desapareceu. As fadas, que já tinham fadado e não podiam desmanchar o que a fada velha tinha feito, choravam sem consolo. Foi então que a fada mais nova saiu do seu esconderijo e disse:
Não posso desmanchar o que foi fadado porque não tenho poderes para isso. Mas, como ainda não dei meu presente, posso tentar ajudar.
E erguendo os braços a jovem fada agitou a sua varinha dizendo:
Fado que a princesinha não morra quando o fuso lhe ferir o dedo! Que fique dormindo por cem anos! Vai dormir até ser acordada pelo beijo de um lindo príncipe! Um beijo de amor!
Mesmo assim, a festa perdeu a graça e acabou. O rei proibiu, sob pena de morte, que alguém fiasse com o fuso naquele reino. Por precaução, quando a princesinha fez quinze anos, foram todos para um outro palácio. Um castelo mais escondido que o rei possuía. Ao chegar no grande palácio, a menina andava, para cima e para baixo. Curiosa como só ela. E lá num quarto no alto da torre, encontrou uma criada que estava fiando. Na verdade era a fada velha disfarçada. A princesinha nunca tinha visto aquilo e quis fazer igual. Assim que a menina pegou no fuso, ele saltou de sua mão e furou seu dedo. A princesinha caiu para trás, como morta. A fada velha deu uma terrível gargalhada e sumiu numa cortina de fumaça. Todos correram e deitaram a menina numa cama. A fada mais nova veio voando e bateu a varinha de condão no alto do palácio. Todo mundo que estava dentro pegou no sono profundo. Os músicos ficaram com os instrumentos na boca e a cozinheira ficou dormindo na frente do fogão onde uma galinha estava sendo assada. Até o fogo adormeceu. A fada mais nova fez um novo gesto com a varinha e uma densa floresta surgiu em volta do castelo para proteger os que dormiam ali. Só o rei e a rainha não adormeceram. Eles beijaram sua filha, abençoaram e foram embora, com a fada, para o seu reino. Rezavam todos os dias para que o encanto tivesse fim. Mas a terrível sina não se quebrou, o rei e a rainha morreram e o reinado deles acabou. Só ficou o palácio dentro dessa floresta, com a princesa dormindo o seu sono mágico e centenário. E assim termina essa triste história, disse o velho, que é verdadeira do inicio ao fim.
O príncipe ficou curioso em saber se a história que o velho contou era verdadeira mesmo. No dia seguinte, bem cedo, pegou um facão afiado e foi para floresta. Chegou e meteu o facão, abrindo caminho, porque a mata era fechada. Ia abrindo e entrando, e assim trabalhando, foi andando, até que deu com o palácio coberto de cipós, sem nenhum rumor, parecendo morto. O príncipe entrou pela porta principal e foi vendo: soldados, músicos, damas, senhores, até os bichos, Tudo parado, dormindo a sono solto.
Ele subiu por uma escada e passou por salas cheias de gente roncando. Até que entrou num quarto onde viu uma cama protegida por um lindo dossel. O príncipe puxou a cortina do dossel e viu a moça mais bonita do mundo, profundamente adormecida. O rapaz ficou completamente apaixonado. Nunca tinha visto uma jovem tão linda. Ele aproximou-se devagar e beijou a princesa. A jovem abriu os olhos e disse:
- Oh, príncipe! Como demoraste em vir!
O palácio estremeceu e todo mundo acordou. O príncipe ouviu as cornetas tocando, bichos berrando, gargalhadas, gritos, música, enfim... barulho de gente viva.
Veio um mordomo muito bem vestido anunciar que o jantar estava à mesa e o príncipe comeu a galinha que estava sendo assada há cem anos.
Ficou aí como num céu aberto e os dois casaram sem perder tempo.
Os dias voavam e o casal era muito feliz.
Mas o príncipe escondia um segredo: sua mãe que tinha sina de lobisomem. O rapaz ia ao palácio da rainha para dar ordens e voltava para o castelo de sua amada. Sempre dizia que estava caçando e não queria que ninguém o acompanhasse.
No fim de um ano a princesa teve um filho. Um menino lindo a quem deram o nome de Belo-Dia. E no outro ano nasceu uma menina, que foi chamada de Bela-Aurora.
Mas o reino entrou em guerra e o príncipe tinha que seguir com as suas tropas. Como não queria deixar a mulher e os filhos sozinhos, resolveu levar todos para o palácio da rainha. Foi na frente e contou toda a história para sua mãe. A rainha fez uma cara estranha e ficou imaginando as piores coisas.
Antes de partir, o príncipe dividiu o palácio em duas partes A Rainha ficaria num lado e a princesa com os filhos no outro. O rapaz chamou um velho mordomo, que era seu amigo, e pediu que vigiasse sua família e tivesse muito cuidado com a rainha.
Assim que o príncipe montou a cavalo e viajou, a malvada rainha começou a ter vontade de comer gente. Ficou mesmo bruta e, como o desejo não passava, chamou o velho mordomo. Mandou que lhe servisse Belo-Dia, com bom molho e batatas coradas, para o almoço do dia seguinte.
O velho só faltou morrer. Pensou.... pensou.... e procurou a princesa. Contou tudo e a moça ficou desesperada. O velho mordomo levou Belo-Dia para sua casinha, longe do palácio e escondeu-o. Na manhã do outro dia matou uma lebre, preparou e serviu a malvada rainha. A danada comeu lambendo os beiços.
Dias depois veio o desejo e ela queria comer Bela-Aurora. Queria a menina assada e temperada com melado. O velho levou a menina para casa e assou uma gata. A rainha comeu chupando os dedos de felicidade.
Dois dias depois exigiu que a princesa fosse refogada em molho de tomate e cebola para o jantar. O velho mordomo levou a princesa para sua casa, juntou-a aos filhos e matou uma ovelha. A rainha comeu saboreando.
Os dias iam passando e a rainha só pensava em comer gente. Saia pelas ruas do reino para caçar como uma desesperada. Uma noite, foi para bem longe do palácio e viu uma casinha escondida na mata. A malvada se aproximou e ficou escutando. Ouviu a voz da princesa e a de seus netos conversando dentro da casa. Eles falavam sobre o príncipe e da saudade que tinham dele. Mas a rainha malvada não tinha coração, nem pena para isso. Percebeu logo que aquela era a casa do velho mordomo e resolveu se vingar. Mandou prender a nora, os netos e o velho. Depois ordenou que se fizesse uma fogueira enorme para queimar aqueles que a desobedeceram. Os guardas, sem outra alternativa, amarram os quatro infelizes num tronco em cima da fogueira. A rainha ficou na varanda assistindo a tudo. Numa gargalhada ela mandou os guardas botarem fogo na lenha. Quando as chamas começavam a crescer ouviu-se uma corneta e barulho de cavalos que se aproximavam. Era o príncipe que voltava vitorioso das guerras. O rapaz estava morto de saudades da mulher e dos filhos e vinha com seus soldados no maior galope. Chegando na praça e vendo aquela cena terrível, o príncipe pulou de seu cavalo, puxou a espada e libertou a princesa, os filhos e o seu velho amigo. Bufando de raiva, o jovem guerreiro gritou perguntando quem se atrevera a maltratar aqueles que ele mais amava no mundo.
A rainha com medo da ira do príncipe saltou da varanda para a fogueira. Morreu, queimada, estorricada, virada cinza e pó. Foi soprada para sempre pelo vento.
O príncipe foi para o palácio abraçado com a princesa e carregando nos ombros Belo-Dia e Bela-Aurora. Convidou seu velho amigo para continuar morando com eles e todos foram felizes como Deus com os anjos. Felizes para sempre.
A Princesa do Sono Sem Fim – Adaptação de Augusto Pessôa

RUSSO

Ele tinha uma banca de balas. Era conhecido como Russo. Apesar de não ser louro. Todos o chamavam assim, talvez pelos olhos azuis. Impressionantes de tão claros. Olhos bondosos, quase piedosos.
Sua banca ficava na parte velha da cidade. E ele morava num apartamento pequeno que ficava por ali. Era querido e respeitado no lugar. Talvez, pela forma que tratava as crianças. Principalmente as mais pobres. Distribuía balas e arrumava emprego para todas. Ele era o Russo. Ele era amado.
Na sua banca sempre tinha um menino trabalhando. Eram meninos de rua que ele gostava de ajudar. Mas esses meninos não ficavam muito tempo com ele. De uma hora para outra sumiam. Isso o entristecia muito. Os amigos diziam para ele não ligar. Era assim mesmo. Essa gente é muito ingrata.
E ele ia seguindo sua vida. O último menino que o ajudara já tinha sumido há duas semanas. Os amigos o aconselhavam a não ajudar mais esses meninos. Mas ele, que já não era mais moço, dizia que precisava realmente dos meninos. Eles faziam o trabalho mais pesado e muitas vezes tomavam conta da banca sozinhos. Isso era o que ele dizia. E todos acreditavam. Afinal, ele era o Russo. Ele era amado.
Um dia, ou melhor, uma noite ele estava no bar da Gorda. Não freqüentava a boate. Ele não tinha nada contra. Só que, como eu já disse, não era mais moço e se sentia estranho num lugar muito barulhento onde as pessoas ficavam se sacudindo e pulando. No bar não tinha isso. As pessoas ficavam sentadas, ou até em pé, mas ninguém se sacudia ou pulava. Apenas jogavam conversa fora ou contavam as suas histórias. E ele ficava lá, tomando a sua cerveja de todas as noites. Mas nesse dia, ou melhor, nessa noite, apareceu um menino. Era louro, branco e magro. Ele sim podia ser chamado de Russo. O nosso Russo não conhecia aquele menino. Parecia ser novo nas redondezas. O Russo, o amado Russo, chamou o menino e começaram a conversar. Os amigos perceberam e já comentavam. Seria mais um para entristecer o nosso amigo. Mas ele nem se incomodava. Os dois conversaram muito e acertaram. O menino iria trabalhar para o Russo. Ele era assim. Era o Russo, o nosso amado Russo.
No dia seguinte começou o trabalho. O menino tinha um nome: Walmir. Mas o Russo só o chamava de Louro. E o apelido pegou. No início o Louro se atrapalhou um pouco com o serviço, mas logo aprendeu e parecia que ia ser um dos melhores ajudantes do Russo. Com o passar do tempo, o Louro dava a impressão que não ia ser mais um ingrato. Estava lá firme. Os amigos comentavam que o Russo finalmente tinha encontrado um bom parceiro. Os dois pareciam satisfeitos. O Russo merecia. Ele era o nosso amado.
O Louro ao terminar o trabalho ia para casa todos os dias. A sua casa não era bem uma casa. Ele morava por ali, pela rua, aliás, como todos que o Russo ajudava. O Louro ia saindo para casa, já não tinha quase ninguém na rua, quando o Russo ficou com pena. Era absurdo o menino ficar pela rua quando ele tinha um apartamento que dava perfeitamente para os dois morarem. Além do mais ele já estava cansado de viver sozinho naquele apartamento. Isso foi o que o Russo falou para o Louro. Estava combinado, o menino iria morar com ele. O Louro ficou satisfeito. Queria avisar os amigos que tinha conseguido um canto, mas o Russo achou melhor ele avisar só no dia seguinte. Já era tarde e ele estava cansado. O Louro aceitou e os dois foram para o apartamento.
O prédio era antigo e parecia deserto. Ao chegar no pequeno apartamento o Louro percebeu que não era tão pequeno assim. Pelo menos para ele. Era um apartamento de dois quartos, com uma sala muito boa. Um dos quartos seria dele. O Russo mostrou onde ele podia ficar e o menino foi tomar um banho. Foi o melhor banho da sua vida. Ao terminar, ele se enxugou e reparou em duas peças de roupa que estavam junto as suas coisas: uma bermuda e uma camiseta. Ele vestiu e foi procurar o Russo. Encontrou o benfeitor na cozinha preparando o jantar. O Russo deu um copo de suco para o menino beber. O Louro tomou de uma golada só enquanto ouvia o benfeitor falar. Era uma maravilha estar ali. As palavras do Russo estavam distantes e o menino se sentia tonto. Talvez, fosse sono. Mas não importava, era tudo tão bom. O Russo continuava falando e o Louro já não entendia mais nada. Os olhos pesavam e um sono forte tomava conta dele. Num abrir e fechar de olhos viu o benfeitor com uma faca de cozinha na sua frente. Sentiu a faca entrando em sua barriga, mas não conseguia gritar. Era como se estivesse com uma barreira na garganta. O Russo esfaqueou o Louro até o menino não sentir mais nada. Limpou a faca e cortou um pedaço do cabelo louro. Foi até o quarto de empregada e abriu um pequeno baú onde havia vários pedaços de cabelo misturados. Jogou o pedaço louro dentro e fechou o baú. Voltou para a cozinha e com uma machadinha esquartejou o Louro. Colocou todos os pedaços num saco de plástico preto. Lavou a cozinha e foi enterrar o lixo num terreno baldio perto de sua casa.
No dia seguinte foi para o lugar de sempre armar a sua banca de balas. Esperou o Louro, mas ele não veio. Os amigos comentavam a tristeza do Russo. Coitado. Tão bom, tão amado. Essa gente é muito ingrata.

A RÃ E O BOI - VÍDEO

A RÃ E O BOI - VÍDEO
Apresentação de Augusto Pessôa no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2010. Clique na imagem e assista a história

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ
Clique na imagem e assista a hitória

UMA APOSTA (VÍDEO)

UMA APOSTA (VÍDEO)
Conto de Artur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

LIVROS LEGAIS

  • GRAMÁTICA DA FANTASIA de Gianni Rodari - Summus Editorial.
  • GUARDADOS DO CORAÇÃO – Memorial para Contadores de Histórias de Francisco Gregório Filho - Editora Amais.
  • FÁBULAS ITALIANAS de Ítalo Calvino - Editora Companhia das Letras
  • DICIONÁRIO DE FOLCLORE BRASILEIRO de Câmara Cascudo - Editora Itatiaia
  • VASOS SAGRADOS de Maria Inez do Espírito Santo - Ed Rocco
  • MEUS CONTOS AFRICANOS - seleção de Nelson Mandela - Ed Martins
  • LENDAS BRASILEIRAS de Camara Cascudo - Ediouro
  • CONTOS TRADICIONAIS DO BRASIL de Camara Cascudo - Ed Itatiaia
  • CONTOS POPULARES DO BRASIL de Silvio Romero - Ed Itatiaia

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)
Peça teatral baseada no conto popular MARIA BORRALHEIRA com Augusto Pessôa e Rodrigo Lima. Direção Rubens Lima Junior. Clique na foto e assista a um trecho da peça.

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)
Clique na imagem e veja a resenha do livro FELIZES PARA SEMPRE

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2009

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)
Conto Africano. Clique na imagem e assista ahistória

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Cliuqe na imagem e assista a um trecho do espetáculo

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo.

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assita a um trecho do espetáculo

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação.

O MARIDO FIEL - VÍDEO

O MARIDO FIEL - VÍDEO
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa. Clique na imagem e assista a história.

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)
conto popular adaptado por Augusto Pessôa. CLIQUE NA IMAGEM E ASSISTA AO VÍDEO

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)
Cena do espetáculo A MOURA TORTA. Clique na foto e veja a cena

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo em cartaz no teatro do Jockey - Gávea

JABUTI

JABUTI
Apresentação no Simpósio Internacional de contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a um trecho da apresentação

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça  (VÍDEO)
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)
Clique na imagem e veja um clipe do espetáculo

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)
conto de Nelson Rodrigues. Adaptação e narração de Augusto Pessôa

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)
Peça baseada no conto popular O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (2003). Clique na foto e veja um trecho do espetáculo.

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)
Conto de Arur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)
Contação de Histórias. Clique na imagem e assista a contação.

MENINA FACEIRA

MENINA FACEIRA
Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no Instituto Moreira Salles - set 2009. Clique na imagem e veja a apresentação.

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)
NA CASA DE SEU PEDRÃO. Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE CONTADORES DE HISTÓRIAS - SESC RJ (2008). Clique na imagem e veja a apresentação

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)
O Rei Doente do Mal de Amores - apresentação no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a cena.

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)
Apresentação do espetáculo O REI DOENTE DO MALDE AMORES no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a apresentação

MALASARTES! (VÍDEO)

MALASARTES! (VÍDEO)
Peça baseada nas histórias de Pedro Malasartes. Clique na foto e veja um trecho do espetáculo

O JABUTI E A FRUTA

O JABUTI E A FRUTA
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a história

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Crítica do espetáculo publicada no JORNAL DO BRASIL

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica sobre o espetáculo

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica do espetáculo.

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro
Livro de Augusto Pessôa publicado pela Editora ROCCO (2007)

FELIZES PARA SEMPRE

FELIZES PARA SEMPRE
Livro com adaptações de Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2003)

CONTOS DE HUMOR

CONTOS DE HUMOR
Contos de Artur Azevedo - organização Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2008)

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL
CONTANDO HISTÓRIAS NA BIBLIOTECA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS