AUGUSTO PESSÔA - CONTADOR DE HISTÓRIAS - (BRASIL)

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Ator, Cenógrafo, Figurinista, Arte Educador Dramaturgo e Contador de Histórias. Bacharelado em Artes Cênicas (Habilitação em Interpretação e Habilitação em Cenografia) pela UNI-RIO - Universidade do Rio de Janeiro.

A PANQUECA FUGITIVA, O RESMUNGÃO E OUTROS CONTOS NÓRDICOS

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HISTÓRIAS DE NATAL

HISTÓRIAS DE NATAL
livro de contos populares adaptados e ilustrados por Augusto Pessõa - Ed. Escrita Fina (2010)

HISTÓRIAS DE BRUXAS - livro

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sábado, 26 de setembro de 2009

A RAINHA QUE VEIO DO MAR - conto popular


Houve um rei que desejava se casar com a moça mais bonita do seu reino. Os emissários do rei correram por todas as casas e chamaram todos os pais de família para apresentarem suas filhas. Mas nenhuma agradava ao rei.
Nessa mesma época, entrou para o batalhão real um recruta meio abobado. Um dia, todo o batalhão foi à missa. Logo que entrou na igreja, o tal abobado começou a chorar. Ninguém entendeu nada e o comandante do batalhão perguntou para o recruta o que estava acontecendo. E o pobre respondeu:
- Não sofro nada! Mas quando vi aquela imagem fiquei com saudades de minha irmã que é muito se parecia com aquela santa!
E o abobado apontou para uma imagem muito formosa que tinha na igreja. Ficaram todos zombando do pobre soldado, mas a história chegou aos ouvidos do rei. O monarca mandou chamar o rapaz e indagou se era verdadeira a história. O soldado respondeu ser exato ter uma irmã muito formosa e parecida com a imagem da igreja. Perguntando o rei onde morava ela, o soldado respondeu:
- Nas gargantas do Monte Escarpado, a dez mil léguas por mar.
O rei mandou logo preparar uma esquadra e enviou uma comissão para pedir a moça em casamento a seu pai. O recruta também foi com a comissão. Logo que chegaram ao Monte Escarpado, avistaram a moça na janela e ficaram todos embasbacados de ver tanta beleza junta. O almirante entregou ao pai da moça a carta do rei, e o velho enviou a sua filha. Na volta do Monte Escarpado, o mar era muito forte, jogava muito e o almirante decidiu ir para a terra. Chegaram numa ilha e foram com a moça para a casa de uma velha, que ali morava. A velha, que era uma desmancha-prazeres, perguntou para onde iam e de onde vinham, e sabendo de tudo armou um plano: convidou a moça para ir dar um passeio pela horta. Chegando lá, atirou a moça dentro de um poço. De noite, quando a esquadra embarcou, ninguém deu falta da moça porque a velha pôs em seu lugar a sua filha, que era feia de dar dó. Quando os navios foram embora, a velha foi ao poço, tirou a moça de lá, cortou seus cabelos, jogou um pó mágico em seu rosto para cegá-la e deixa-la muda, amarrou a moça e botou-a num caixão. Atirou o caixão no mar e foi para casa gargalhando. Mas por uma sorte da vida, o mar levou o caixão até o reino. E o caixão chegou primeiro que os navios. Um pescador o achou e levou para casa. Sem abrir julgou que o caixão estava cheio de dinheiro. Começou a dizer por todos os lados que tinha mais dinheiro que o rei. O monarca soube da história e chamou o pescador. O homem confessou ter achado um caixão cheio de dinheiro, e foi um guarda do palácio, para examinar o caso. Aberto o caixão, deram com a moça dentro. Ficaram todos penalizados por verem uma moça tão bonita cega, muda e com os cabelos cortados. Voltou o guarda para o palácio com a moça que iria trabalhar na cozinha. Quando chegaram no palácio, já tinha também chegado à comissão com a filha da velha. O almirante, muito triste, disse ao rei:
- Não fui como vim. Fui alegre e volto triste; mas me sujeito à pena que o rei, meu senhor, me quiser dar.
O rei respondeu:
- Nada tenho a fazer, senão casar- me com esta feia mulher, que me chegou. Palavra de rei não volta atrás!
Houve o casamento, mas o rei se conservou sempre triste e vestido de luto. Um tempo depois, o monarca encontrou a moça cega e muda trabalhando na cozinha e ficou ainda mais triste. A moça foi reconhecida por seu irmão e pelos da comissão. O rei mandou buscar a velha, mas a malvada negou tudo e até desconheceu a sua própria filha. O rei, reconhecendo que os traços da velha eram os mesmos da moça feia com quem tinha casado, mandou ela embora junto com a mãe. Mas antes mandou cortar o cabelo das duas. Os cabelos voaram e caíram no rosto da moça que foi achada no mar. Logo ela voltou a falar, a enxergar e seus cabelos cresceram. Houve então o novo casamento com a rainha, que veio do mar.
Adaptação de Augusto Pessôa

A MULHER E A FILHA BONITA - conto popular


Uma mulher viúva tinha uma filha muito bonita. A mulher também era muito bela, mas tinha uma inveja danada da beleza da filha.
Um dia, passou em frente a sua casa um grupo de viajantes e a mulher disse para eles:
- Os senhores já viram uma cara mais formosa do que a minha?
E eles responderam:
- É muito bela! Mas a sua filha ainda é mais!
A mulher ficou com raiva e foi tomando ódio da filha.
Outra vez passaram por lá outros andarilhos e ela fez a mesma pergunta e teve a mesma resposta. E sempre que passava alguém pela casa a cena se repetia. A mulher, com muita raiva, mandou trancar a mocinha num quarto para não ser vista por mais ninguém. A menina sofria tudo com muita paciência e nada dizia.
No quarto onde ela estava, tinha uma janelinha que dava para a rua. Uma vez ela abriu a janela na hora certa em que passavam uns viajantes. Os homens viram a jovem e ficaram encantados. Eles chegaram a casa e a mãe da mocinha foi logo dizendo:
- Os senhores já viram uma cara tão bonita como a minha?
E mais uma vez a mulher ouviu a resposta:
- É bonita! Mas a da moça que está lá na janela, ainda é mais!
A mulher ficou com tanto ódio que ordenou a um empregado da casa que levasse a filha para a floresta e lá a matasse. O empregado levou a moça. Chegando numa clareira o homem puxou o facão, mas teve pena de matar e mandou a moça sumir dali. O empregado cortou a ponta da língua de uma cachorrinha e levou para a senhora, dizendo que tinha matado a moça. A malvada acreditou.
A mocinha ficou andando pela floresta sem destino. De noite ela subiu numa grande árvore e muito longe viu uma fumacinha. Desceu e foi para aquela direção. Depois de muito andar, ela chegou: era um grande palácio. Mas sem ninguém dentro e muito sujo. A moça, que era muito trabalhadeira, arrumou, varreu, esfregou e limpou. Deixou tudo um brinco. Ela não sabia, mas o palácio era do Rei dos ladrões. Quando foi mais tarde a moça viu ele chegar com a sua grande tropa. Ela teve muito medo e se escondeu. Os ladrões ficaram muito espantados e felizes com aquela arrumação toda. Procuraram por todo o palácio para saber quem tinha feito aquilo e encontraram a moça. Como ela era muito bela, todos os ladrões ficaram encantados. Eles começaram a brigar para ver quem ficaria com ela. Então o Rei dos ladrões mandou parar a briga e ordenou que a moça ficasse em casa morando com eles. Mas todos tinham que a tratar como se fosse uma irmã caçula. Assim fizeram, e a mocinha ficou ali, descansada.
Passou um tempo e chegou aos ouvidos da mãe que a filha ainda estava viva. Viva e muito bem porque estava rica. A mãe mandou chamar uma feiticeira e pediu que procurasse a sua filha e desse fim na mocinha. A feiticeira aceitou a proposta e foi para a casa dos ladrões. Chegou no palácio quando a moça estava sozinha. A feiticeira, querendo enganar a jovem, foi dizendo:
- Oh, minha netinha, há tempos que não te vejo! Cuidei de você quando a menina era só um bebê! Trouxe aqui um presente de pobre: um parzinho de sapatos! Aceite que é de bom grado!
A moça por delicadeza aceitou os sapatos e logo que os calçou caiu pra trás como morta. A velha foi embora correndo. Quando os ladrões chegaram, encontraram a moça caída como morta e ficaram muito tristes. Pegaram a moça e botaram num caixão de vidro junto com um grande tesouro dentro. Mas não tiveram coragem de enterrá-la. Em cima do caixão colocaram um bilhete onde estava escrito: “Quem tiver coragem que enterre!”
Um príncipe, que andava caçando, encontrou o caixão de vidro. Vendo a moça, ficou tão apaixonado que, em vez de enterrar, a levou para o palácio. Guardou a jovem no seu quarto com toda a riqueza que encontrou. E a moça sempre a dormir e o príncipe quase doido de paixão. Não deixava ninguém ir ao seu quarto. Mas uma vez, estando ele fora, a princesa sua irmã teve curiosidade de ir ao quarto ver o que o príncipe escondia lá. Chegou, abriu o caixão e viu o tesouro e a moça. Achou tão bonita, mas estranhou que ela estivesse com uns sapatos tão feios. Puxou os sapatos e a moça suspirou e sentou-se pedindo água. A princesa deu a água e conversou com ela. A jovem contou toda a sua história. Depois a irmã do príncipe tornou a calçar os sapatos na moça que adormeceu de novo.
Quando o príncipe voltou, a princesa disse:
- Se você me der aquele tesouro que encontrou, eu conto um segredo que descobri lá no seu quarto!
O príncipe concordou e sua irmã desencantou a moça. Houve uma grande festa e o príncipe casou-se com a linda moça. No fim dos nove meses ela deu à luz a dois meninos. A coisa mais linda que podia ser. Mas a mãe da moça, sabendo de sua felicidade, mandou a feiticeira para ser parteira das crianças. Depois do parto, a velha escondeu os meninos e mostrou ao rei um sapo e uma lagartixa. A feiticeira mentiu dizendo que a moça tinha parido aqueles monstros porque era uma bruxa. O príncipe andava ausente numas guerras e o pai mandou para ele uma carta contando o que tinha acontecido. O príncipe mandou uma resposta dizendo ao pai que matasse a mulher. Mas o rei teve pena e somente cortou um dos seios da moça e a expulsou de casa.
Sem entender nada, a pobre jovem saiu de novo pelo mundo. Foi andando e, sem perceber, foi parar na casa de sua mãe. Chegou no momento exato que a feiticeira entregava os netos para a malvada mulher. A moça se armou de todas as forças, pegou um pau e bateu nas duas malvadas. Recuperou seus filhos e voltou a caminhar sem destino. Tendo muita sede chegou a uma fonte e bebeu água. Passou água no peito e ele tornou a crescer. Ela continuou sua viagem até chegar na casa de um gigante. A jovem contou toda a sua triste história. O gigante ficou com pena e deixou ela ficar por lá com os seus dois filhos.
Muito tempo depois, o príncipe estava em uma caçada e passou na casa do gigante. Viu os dois meninos e tomou por eles muita afeição. Desde esse dia, sempre que ia caçar, passava pela casa do gigante. Até que um dia viu sua mulher. Percebeu todo o mal que tinha feito e, chorando, pediu perdão. A moça que o amava muito aceitou. E eles passaram a viver numa felicidade imensa. Felizes como Deus com os anjos. Felizes para sempre.
Adaptação de Augusto Pessôa

sábado, 19 de setembro de 2009

ADIVINHAS

1 - O que é, o que é? Que tem luz e só vive no escuro?

Resp: vagalume

2 - O que é, o que é? Qual a hora que o relógio não marca?

Resp.: a hora H

3 - O que é, o que é? Quem de 25 tira?

Resp.: 15.

A FILHA DO PESCADOR - conto popular

Há muito tempo atrás, num reino distante, um pescador fazia sua pescaria diária, quando encontrou no fundo do mar uma jóia. Um anel de ouro cravejado de diamantes raros.
“Uma jóia digna de um Rei”, pensou o pescador. E resolveu dar a belíssima jóia de presente ao jovem monarca de seu reino. Voltou para casa, mostrou a jóia a filha e contou o que faria. A moça se chamava Maria. Era muito linda, tão linda quanto inteligente, e desaconselhou o pai. Disse que era melhor ele não fazer isso. Mas o pescador estava decidido. Envolveu a jóia num pedaço de veludo e foi para o castelo. Entrou no enorme palácio, foi a sala do trono e depositou o presente, humildemente, aos pés do jovem Rei. O monarca ficou satisfeito com a jóia, mas disse:
- Agradeço o presente que me dás. Mas quero ver se realmente és fiel ao teu Rei. Tens família?
- Sou viúvo.- respondeu o pescador - E tenho apenas uma filha.
- Pois então, quero ver tua filha. Mas não quero que ela venha nem nua, nem vestida. Nem a pé, nem a cavalo. Nem de noite, nem de dia. Se isso não acontecer, somente a morte lhe caberá!
O pescador saiu do palácio decepcionado e já se preparando para morrer. Chegou em casa e contou o que acontecera à filha. Maria pensou um pouco e pediu ao pai que saísse e arrumasse um grande punhado de algodão e um carneiro enorme. O maior que ele pudesse encontrar. O pescador saiu e voltou com os desejos da filha. Então, Maria esperou que o dia se fizesse noite. Quando a noite já ia terminando e o sol começava a sangrar o céu, mas a lua e as estrelas ainda se faziam presentes, a jovem Maria tirou sua roupa. Depois se envolveu no algodão, montou no carneiro e foi para o palácio. Ao chegar no enorme palácio, chamou o Rei:
- Eis me aqui, senhor meu Rei, a filha do pescador. Envolta em algodão: nem nua, nem vestida. Montada neste carneiro: nem a pé, nem a cavalo. Tendo o sol e a lua presentes no céu: nem de dia, nem de noite.
O Rei ficou impressionado com a inteligência da moça e resolveu dar uma festa em sua homenagem. E ainda disse:
- Vais escolher entre os objetos do palácio aquilo que mais desejares. O objeto do teu desejo será teu para sempre.
Maria foi mandada para um quarto que tinha sido designado para ela. Deram-lhe um belíssimo traje, digno da mais rica das princesas. Vestida como uma soberana, a jovem chamou um criado e pediu para que ele fizesse uma bebida com planta dormideira.
À noite, na hora da festa, Maria apareceu e encantou a todos os convidados. Principalmente, o jovem Rei. Quando a festa ia pela metade, delicadamente, Maria ofereceu ao Rei a bebida que tinha sido preparado pelo criado. A bebida com planta dormideira. O jovem Rei, muito afobado, tomou tudo de um só gole e logo adormeceu. Maria chamou os criados e pediu que colocassem o Rei numa a carruagem. Os criados assim fizeram. E ela partiu com o Rei para sua casa. Chegando lá, a jovem colocou o Monarca em seu quarto. Em cima da cama. Quando o jovem Rei despertou, ficou assustado e perguntou o que significava aquilo. E Maria respondeu:
- O senhor meu Rei me disse que eu poderia escolher o objeto que mais desejasse e que isso seria meu para sempre. Pois tu és o objeto do meu desejo!
O Rei, que já estava encantado, ficou completamente apaixonado. Casaram-se e foram muito felizes... Felizes como Deus com os anjos.... Felizes para sempre !!!

Adaptação de Augusto Pessôa do conto popular "O Pescador"

A BELA E A FERA - conto popular


Há muito tempo atrás, num reino distante, morava um mercador com suas três filhas. Três moças lindas. Muito bonitas mesmo. Infelizmente, as duas mais velhas não aliavam bondade à beleza. Eram rancorosas, invejosas, maledicentes. Mas a mais nova, ah... a mais nova... era boa como um anjo. Tanto por dentro como por fora. Por isso todos a chamavam de a Bela.
Certa vez, o mercador precisou fazer uma longa viagem de negócios. As filhas mais velhas pediram presentes: queriam as jóias mais caras, as sedas mais raras, os perfumes mais inebriantes. O mercador perguntou a Bela, que era sua filha do coração, o que ela desejava. A moça, que estava satisfeita com tudo que tinha, não sabia o que pedir. O pai insistiu. E Bela, que tinha entre as mãos uma flor, pediu uma rosa. A rosa mais bonita que ele pudesse encontrar. Apenas uma rosa.
O mercador partiu. Resolveu seus negócios e começou sua viagem de volta para casa. Pensava só em sua família e nem percebeu que seu cavalo ia por uma estrada que ele não conhecia. A estrada era cercada de arbustos. À medida que o mercador avançava na estrada os arbusto iam estreitando a passagem como querendo impedir a passagem do mercador. Mas o cavaleiro insistia. De repente, uma tempestade se armou. Raios e trovões pareciam cair na cabeça do pobre homem. O vento soprava querendo levar o mundo. Nesse desespero o mercador só pensava em sua família. Principalmente na sua filha mais querida. E sem perceber, murmurou:
- Bela... Ah, Bela...
A tempestade se dissipou. O caminho abriu. A uma certa distância o mercador avistou um castelo iluminado e resolveu pedir pousada. Entrou, mas não viu ninguém. Levou seu animal para estrebaria pensando em dormir por lá mesmo. Mas lá também não encontrou ninguém. Voltou e entrou no castelo.
- Oh de casa! Tem alguém aí?
Ninguém respondeu. O castelo era ricamente decorado. Com lustres de cristal que pareciam feitos de sonho. O homem andou por salas e salões, mas não encontrou ninguém. Até chegar a uma grande sala onde tinha uma mesa comprida com uma ceia posta para uma pessoa. O mercador que estava com fome sentou-se e comeu. Os pratos eram trocados como que por mágica. Depois de alimentado, o homem foi ao andar superior por uma escada de mármore toda decorada em ouro. Entrou em vários quartos a procura de alguém, mas nada! Até que chegou a um quarto onde uma cama enfeitada por um belíssimo dossel parecia convidá-lo a dormir. O mercador tirou sua roupa, deitou-se e dormiu. No dia seguinte acordou sobressaltado. O nobre, dono do castelo, podia vê-lo ali e não gostar. Ou talvez algum criado. Resolveu vestir-se. Mas qual não foi sua surpresa ao encontrar, ao invés de suas roupas, um casaco de veludo, uma camisa de seda e botas de pelica. O mercador vestiu-se. Procurou ainda por alguém, mas não encontrou. Foi a estrebaria, e lá estava seu cavalo. Selado e pronto para a viagem. Montou e foi saindo. Mas ao passar pelo jardim do palácio, viu uma deslumbrante roseira. E no meio da roseira uma rosa. Magnífica! Era a rosa! A rosa de bela. O mercador desmontou e com muito cuidado colheu a rosa. Mas da haste partida começou a pingar sangue. O homem se assustou, mas ficou tremendo de medo ao ouvir uma voz. Uma voz que parecia vir das mais profundas cavernas:
- Ladrão! É essa a paga que me dá pela hospitalidade que dei?
O mercador virou-se e viu: o mais terrível monstro que já poderia ter visto. O corpo era de homem, mas a cabeça era de javali. Dois dentes pontudos saiam da boca como chifres. As mãos pareciam patas de urso com garras compridas.
- Vai morrer, por essa falta que fez!!
O mercador só pensava em sua família. Tinha negócios para deslindar que somente ele poderia resolver. Se isso não acontecesse, sua família ficaria na miséria. O mercador pediu ao mostro três semanas. Três semanas para resolver seus negócios. Depois ele voltaria para morrer. A fera olhou bem nos olhos do mercador e viu verdade no que ele dizia.
- Vai ter suas três semanas! Ao cabo delas deverá voltar aqui, ou trazer alguém para morrer em seu lugar!
O mercador foi embora muito triste. Ao chegar em casa, as filhas mais velhas vieram correndo pegar seus presentes. E ficaram decepcionadas ao ver que o pai não trazia nada para elas. E com muito inveja ao ver nas mãos do mercador a rosa da caçula. Bela achou seu pai estranho e perguntou o que tinha acontecido. Mas o mercador alegou cansaço. A jovem não acreditou, mas evitou insistir temendo incomodar o pai.
As três semanas se passaram. O mercador resolveu seus negócios. Chamou as filhas e contou o que acontecera no castelo do monstro. As mais velhas se desesperaram:
- Vamos ficar na miséria!!! Vamos morrer de fome!!!
Bela só pensava em seu pai. E se ofereceu para morrer em seu lugar. As mais velhas aceitaram de imediato:
- E claro que ela tem que morrer!! Por causa dela... por causa dessa maldita flor é que tudo está acontecendo!!!
Mas o mercador não concordou. Bela foi ao seu quarto para rezar, a fim de encontrar um jeito de resolver o problema. Quando, de repente, sentiu sono. Um sono muito grande e logo dormiu. No seu sono sonhou. Uma voz dizia que ela encontraria um anel que a levaria para onde ela quisesse. Ao acordar, Bela encontrou o anel sobre o travesseiro. Escreveu uma carta a seu pai contado o que faria. Colocou o anel e pediu:
- Anel de condão, pelo condão que Deus te deu, eu quero ir ao encontro do meu destino!
Fechou os olhos. Quando abriu estava na grande sala. Onde tinha uma comprida mesa com uma ceia posta para dois convidados. Bela sentou-se. Sentia muito medo, mas tentava espantar esse sentimento com a certeza de que estava ali para morrer por seu pai. De repente, ela ouviu um ranger de porta e passos entrando na sala. Era o Monstro que trazia nas mãos um ramo de flores.
- Não tema! Nada lhe acontecerá enquanto estiver aqui!
O Monstro estendeu o ramo para Bela. A jovem pegou as flores, mas sentia muito medo.
- Sinto que tem medo de mim. Mas eu amo-te... amo-te tanto!
Aquelas palavras entraram nos ouvidos de Bela e ela teve mais medo que da morte. O Monstro virou-se e ia saindo, quando Bela perguntou quem seria o outro convidado a sentar-se à mesa.
- Esse lugar era para mim. Mas como sei que minha figura lhe causa repulsa, vou sair. E só voltarei se assim desejar.
Bela pediu que o Monstro sentasse e comesse com ela. E a moça ficou encantada com a delicadeza da Fera, que praticamente lhe dava comida na boca.
Os dias de Bela no castelo do Monstro foram os mais felizes possíveis. A Fera lhe cobria de presentes e delicadezas. Mas Bela começou a sentir um aperto no peito. Era a saudade. Saudade de sua família, de seu pai. Pediu ao Monstro para deixá-la partir. A Fera não queria deixar, mas deu para Bela um espelho mágico. Por esse espelho ela poderia ver tudo que quisesse. A moça pegou o espelho e pediu para ver seu pai. E qual não foi sua tristeza, ao ver seu pai muito doente, quase a morte. Bela suplicou ao Monstro que a deixasse partir.
- Pode ir, mas volte daqui a sete dias. Se não voltar quem irá perecer sou eu.
Bela colocou o anel e pediu:
- Anel de condão, pelo condão que Deus te deu, eu quero ir ao encontro de meu pai!
Fechou os olhos. Quando abriu estava no quarto do pai. O mercador ao ver a filha ficou praticamente curado. As irmãs mais velhas ficaram espantadas ao verem Bela. Elas acreditavam que a moça estava morta. E sentiram muita inveja ao ver os riquíssimos trajes da irmã. Bela contou todos os seus dias de alegria no castelo do monstro. As irmãs resolveram então, roubar o anel de Bela para que ela não pudesse voltar ao castelo. Num momento que Bela cuidava de seu pai e tinha tirado o anel para isso, as irmãs entraram correndo no quarto. Inventando uma urgência tiraram Bela do quarto e roubaram o anel.
Sete dias se passaram. Oito... Dez... Bela não encontrava o anel e não sabia como voltar ao castelo do monstro. Uma noite sonhou. A mesma voz dizia que a Fera estava morrendo e que suas irmãs tinham roubado o anel. Ao acordar, Bela correu ao quarto das irmãs.
- Manas!! Manas!! Imaginem, perdi meu anel! E aquele que encontrar morrerá daqui a uma semana!!
As irmãs devolveram depressa o anel dizendo que tinham acabado de encontrá-lo. Bela colocou o anel e pediu:
- Anel de condão, pelo condão que Deus te deu, eu quero ir ao encontro do meu destino!!
Fechou os olhos. Quando abriu, estava nos jardins do palácio. Procurou pela Fera, mas não encontrava. Até que, viu o Monstro caído perto da roseira. Mal respirava. Bela sentiu um aperto no peito. Mas não era a saudade da família. Era diferente. Era amor. Bela amava o Monstro. A moça aproximou-se. Tomou a cabeça da Fera nos braços. Beijou-o e uma de suas lágrimas molhou o rosto da Fera que estava morrendo. De repente uma luz tomou conta de todo o jardim, de todo o castelo, de toda região. A Fera transformou-se num lindo príncipe. O mais formoso que poderia existir. Os arbustos transformaram-se em soldados e criados. E a roseira transformou-se numa fada. O príncipe contou a Bela que tinha sido enfeitiçado por uma bruxa. A fada continuou a história, dizendo que estava ali para ajudar, mas não tinha poder suficiente para acabar com o encanto. Bela reconheceu a voz da fada. Era a mesma voz dos seus sonhos. A fada fez um gesto mágico e trouxe a família de Bela para o palácio. Mas... teve o cuidado de transformar as irmãs de Bela em estátuas de mármore, até que a maldade saísse de seus corações. Bela então, casou-se com príncipe e eles viveram felizes para sempre.
Adaptação de Augusto Pessôa do conto popular "A BELA E A FERA"

sábado, 12 de setembro de 2009

MALASARTES SONHANDO COM ANJOS (conto popular)


Já era noite e o Pedro, depois de gastar todo o seu dinheiro, andava por uma estrada. Estava cansado e com muita fome. A barriga roncava. E num ronco alto. Até que passou por ele uma charrete. O amarelo falou ao condutor, parando o veículo:
- Boa noite! O amigo mora por aqui?
- Moro, sim senhor! – respondeu o outro.
E o Pedro continuou:
- O amigo sabe se por aqui tem algum povoado, uma estalagem ou uma venda?
O homem da charrete, antes de responder, olhou para o amarelo com muita pena e falou assim:
- Tem, meu amigo! Tem uma estalagem logo virando a curva, mas acho que o amigo não vai se fiar ali. É uma estalagem com muito conforto. Metida a besta. O dono é um sujeito cheio de artimanha. Gosta um bocado de dinheiro. Principalmente dos outros. Ele é muito sabido... inventa umas histórias... conta umas “lorota”... e engana todo mundo! Obriga as pessoas a pagar uma fortuna pela hospedagem. Quem não tem dinheiro tem que ficar trabalhando na estalagem para pagar a divida. E o sujeito adora enganar os trouxas!
O condutor da charrete respirou fundo e continuou:
- O amigo... me perdoe... mas não parece nem provido de dinheiro, nem de esperteza. Acho melhor seguir seu caminho e procurar um lugar mais tranqüilo.
E o amarelo quis saber:
- E como é que ele engana as pessoas?
- Ele inventa que tem uns sonhos... e diz que com eles consegue coisas maravilhosas! E cobra alto por elas! Muito alto mesmo! E tem uma lábia! Leva todo mundo na conversa.
O Pedro ficou curioso de conhecer o tal estalajadeiro, fez uma cara de pobre coitado para o homem da charrete e pediu:
- Meu amigo, eu não agüento mais! Estou muito cansado e com muita fome! Vou me entregar a minha própria sorte! O senhor se incomoda de me dar uma carona até a estalagem?
O outro encolheu os ombros:
- Se o amigo assim quer... pode subir!
O Malasartes subiu depressa e a charrete seguiu pela estrada. Logo na virada, o Pedro viu a estalagem. E era realmente uma construção bonita. Muita enfeitada, com um telhado vermelho e paredes branquinhas. Tinha uma placa que anunciava: “Estalagem dos Sonhos”. O amarelo saltou da charrete, agradeceu ao homem e entrou no estabelecimento por uma porta de vai e vem. Dentro tinha um bar com mesinhas. O lugar estava cheio e quando o amarelo entrou, todos olharam para ele. Começaram a cochichar e dar risadinhas. Deviam estar pensando que era mais um que o dono da estalagem iria enganar. O Pedro foi até o balcão e o estalajadeiro veio atender. Era um homem bonito. Com a cara redonda e rosada. Os cabelos eram encaracolados e louros. Parecia um anjo. A face da bondade.
- O que o amigo deseja? – perguntou o homem com um sorriso e cara de boas vindas.
Malasartes coçou a cabeça, olhou para todos em volta e respondeu:
- Preciso comer alguma coisa e de uma cama para descansar. É possível?
- Mas claro que é possível! Vou mandar servir nossa melhor comida e depois o amigo vai dormir na mais confortável cama da estalagem.
O Malasartes agradeceu e foi sentar numa das mesas. O povo todo do lugar não tirava o olho dele. Riam e cochichavam. A comida veio e era realmente uma beleza. Tudo muito bem servido e apetitoso. Quando terminou de comer, Malasartes deu uma espreguiçada e o dono da estalagem se aproximou:
- Ficou satisfeito, amigo?
- Muito! Nunca comi uma comida tão gostosa!
- Eu sabia! É uma receita especial! – o sujeito respirou fundo e baixou a voz – Olha, o amigo pode não acreditar, mas quem me ensinou essa receita foi um anjo!
Malasartes coçou a cabeça e pensou: “Agora é que começa a lorota!”
O Pedro olhou para o homem, fez uma cara de espanto e perguntou alto:
- Um anjo?
E o outro respondeu muito sério, fazendo um gesto para o Malasartes baixar a voz:
- É! Um anjo! Eu sonho com anjos e eles me dizem coisas!
- Como assim? – quis saber o amarelo.
- Eles mostram onde eu posso encontrar coisas maravilhosas e me ensinam receitas. Tudo que têm lá no céu eles me contam.
- É mesmo?
- Claro! O amigo não acredita?
- Acredito! Já vi cada coisa nessas minhas viagens! O amigo não pode nem imaginar! Viajo tanto e estou tão cansado... foi muito bom comer essa comida receitada por anjos! Mas agora, o que eu preciso mesmo, é de um lugar para descansar os ossos...
O homem louro deu uma risadinha e todo mundo que estava no lugar esticou os ouvidos. O homem esfregou as mãos e disse ao amarelo:
- Pois o senhor vai ter o melhor lugar desse mundo para descansar. Uma cama maravilhosa e com um detalhe especial: um travesseiro forrado com penas!
- Pena de quê? – quis saber o Pedro – Pena de ganso?
- Penas de anjo! – respondeu o dono da estalagem.
O Malasartes fez novo espanto:
- O senhor depenou os anjos?
O homem louro riu.
- Não, meu amigo! É que nos meus sonhos, os anjos descem do céu por uma escada de ouro e contam para mim maravilhas!
O Pedro continuou no espanto.
- Escada de ouro? E como eles arrumam tanto ouro para fazer uma escada que vem do céu? Eles é que constroem a escada?
O outro ficou espantado com a pergunta, mas não se fez de rogado:
- Não sei. Isso eles nunca me contaram.
E o Malasartes o tranqüilizou:
- Ah... deve ser segredo deles!
- Isso mesmo! Eles descem pela escada de ouro e vem conversar comigo lá no meu quarto. Enquanto falam batem com força as asas e as penas vão caindo. E os meus sonhos são tão reais que, quando acordo, o meu quarto está coberto de penas. Penas de anjo. Eu cato aquelas pluminhas branquinhas e fabrico esses travesseiros.
O Pedro olhou bem nos olhos do sujeito. Deu um suspiro profundo e falou:
- Mas que beleza, né?
- O amigo não acredita?
O povo que estava na estalagem deu uma risadinha. Parecia que aquela pergunta era uma espécie de bordão do dono da estalagem. Mas o Malasartes não se incomodou.
- E porque não havia de acreditar? Um homem com essa sua cara... parece que veio do céu junto com os anjos. Como é que eu não vou acreditar numa história tão bonita e tão verdadeira?
- E ainda tem mais!
- Pois continue! – disse o amarelo querendo ver aonde isso ia chegar.
- Esses travesseiros são mágicos!
- Mágicos?
- É. Quem deita a cabeça neles tem o melhor sono do mundo! Recupera todas as forças e pode depois enfrentar qualquer coisa!
O Malasartes deu um pulo de felicidade e falou:
- Pois é exatamente isso que eu estou precisando! Amanhã tenho uma tarefa grande para enfrentar!
O povo todo do lugar, não se agüentou, deu uma grande gargalhada. E o Pedro perguntou ao dono da estalagem:
- Eles estão rindo de quê?
- De nada, meu amigo, essa gente tem o riso frouxo!
- Bom... se é assim... eu prefiro ir dormir. Minha cama já está pronta com o travesseiro mágico?
- Prontinha! Está só esperando o seu descanso!
- Eu só tenho uma pergunta para fazer: quanto isso vai me custar? – quis saber o amarelo.
- Ah... amanhã a gente conversa sobre isso! – desconversou o homem louro.
Malasartes deu de ombros e foi para o quarto. O dono da estalagem esfregou as mãos com satisfação.
- Amanhã vou ter mais um empregado na casa!
O povo todo do lugar deu uma nova gargalhada.
O Pedro entrou no quarto. Era um quarto muito jeitoso com uma janelinha que dava para o quintal da estalagem. Era uma janela baixa. Apesar da noite alta, o amarelo viu que o quintal era coberto de pedrinhas. Ao fundo uma grande pedreira. Não tinha como fugir dali. Devia ser mais uma artimanha do estalajadeiro para prender aqueles que ele enganava. O Malasartes se espreguiçou e foi deitar. A cama era realmente muito confortável. O amarelo ficou curioso, pensando em quanto o dono da estalagem iria cobrar por aquela estadia. Estava nisso quando... dormiu. O sono dos justos.
No dia seguinte, já com o sol alto, o Pedro levantou. Tomou um banho, se vestiu e saiu do quarto para tomar o seu café da manhã. Encontrou o bar cheio. Todas as pessoas, que estavam ontem à noite no lugar, já estavam lá. O dono da estalagem estava atrás do balcão com um sorriso largo. O Malasartes se aproximou e falou apontado para as pessoas:
- Bom dia! Desculpe perguntar: esse povo não dorme, não? Parece que ninguém saiu daqui!
O homem louro deu uma gargalhada.
- Eles gostam daqui! – mudando de assunto, emendou – Dormiu bem?
- Como um rei! Tive um sonho maravilhoso! O amigo nem vai acreditar!
Atrás do balcão, o homem que parecia satisfeito disse:
- Foi o travesseiro! Eu não falei?
- Mas eu não duvidava disso. Bendito travesseiro com asa de anjo! – respondeu o amarelo.
O estalajadeiro fez uma cara triste.
- É... mas tem uma coisa chata.
- O que é? – quis saber o Pedro.
- O travesseiro mágico só pode ser usado uma única vez. Depois de usado ele perde a magia e vira um travesseiro comum.
- Ah... mas que tristeza! Tive um sonho tão gostoso que estava pensando em até levar um travesseiro comigo! – e o Malasartes mudou de assunto – Tem café da manhã?
- Claro!
- É receita dos anjos?
- E podia ser de outro jeito?
- Então pode me servir, por favor?
O Pedro sentou numa mesinha e todo mundo ficou olhando. O estalajadeiro serviu um café digno de um príncipe. O Malasartes comeu até se fartar. Depois foi até o balcão onde estava o dono da estalagem, sendo o tempo todo seguido pelos olhares do pessoal que estava no bar. Chegou no balcão, bateu de leve e disse ao homem louro:
- Bom... já comi, já dormi e só uma coisa me prende aqui: quanto lhe devo pela comida e dormida?
O povo que estava por lá espichou o ouvido e foi aí que o homem louro mudou a cara. Ficou sério e falou assim:
- Espera aí! Não é só uma “comida e uma dormida”! É uma comida receitada por anjos e uma dormida em travesseiro mágico. Um travesseiro com asa de anjo que o amigo estragou!
Malasartes fez espanto:
- Estraguei?
- Se ele perdeu a mágica porque foi usado pelo senhor... foi o senhor que estragou!
- E não é que é verdade! Que pena! Mas quanto vai ficar isso?
O povo todo se espichou mais para ouvir a quantia. Teve gente que quase caiu da cadeira. E o dono da estalagem fez seus cálculos:
- Bom... contando a comida... à noite de sono... e o café da manhã. Tudo de primeira! Receitado por anjos! O amigo me deve... Seis milhões!
Houve um alarido entre aqueles que estavam no bar. O dono da estalagem nunca tinha cobrado tão alto. O Malasartes arregalou o olho e não disse nada, mas o homem louro perguntou:
- Que foi? Achou caro? Não tem o dinheiro para pagar?
E o amarelo respondeu:
- Seis milhão! – ele respirou fundo e continuou – Meu amigo, tô impressionado como o senhor é barateiro! O senhor não valoriza o seu trabalho! Um serviço de primeira!
O povo todo ficou de boca aberta com a resposta do Malasartes, mas o estalajadeiro perguntou:
- E o senhor vai me pagar?
- Claro! O senhor tem dúvida?
Houve um silêncio e o caipira malandro continuou:
- Eu vou lá no meu quarto pegar minhas coisas e já lhe trago o pagamento.
O Malasartes saiu. Ficou tudo mundo no maior alvoroço para saber como aquele amarelo iria pagar aquela dívida. O dono da estalagem estava tranqüilo. Sabia que, por ali, o Pedro não podia fugir por causa da pedreira. Outros já tinham tentado e não conseguiram. Lá no quarto, o Malasartes pegou suas coisas e abriu a janela. Sem pular, esticou o braço para o quintal e pegou um punhado de pedrinhas do chão que colocou no bolso. E voltou para o bar. O povo todo esperava ansioso. O homem louro, quando viu o Malasartes, perguntou:
- Cadê o meu pagamento?
- Tá aqui!
Disse o amarelo tirando do bolso seis pedrinhas e colocando em cima do balcão. Uma do lado da outra. O povo todo ficou espantado e o homem louro perdeu a cara de anjo. Ficou bravo e gritou:
- Isso são seis milhões? Isso são seis pedrinhas vagabundas!
Aí, o Malasartes é que ficou meio bravo:
- Não diga isso! O senhor não sabe o que está falando, mas pode deixar que eu vou explicar!
O malandro respirou fundo e baixou a voz:
- Como o senhor, essa noite, eu também sonhei com os anjos! Deve ser por causa do travesseiro mágico! Eles vieram até o meu quarto e me contaram um segredo mais do que secreto! Um segredo que eles esconderam até do senhor! Um segredo importantíssimo! Eles me ensinaram a fazer a escada de ouro que vai até o céu!
- Como é que é? – perguntou o outro sem entender.
- É como eu estou lhe dizendo: sonhei com os anjos e eles me ensinaram a fazer a escada de ouro. E sabe como faz? Com essa pedrinha! O amigo pega uma delas e de manhã coloca pra tomar chuva. Numa tarde deixa tomar sol. E numa noite deixa tomar sereno. Depois planta a pedrinha. Enquanto planta reza um Pai-nosso e duas Ave-Marias. Depois faz uma cruz em cima riscando a terra e... em dois dias nasce uma escada de ouro. E a escada fica uma beleza! Toda de ouro! E os anjos ainda me disseram que cada escada custa um milhão! Como eu estou lhe dando seis pedrinhas... tão aí: seis milhão!
O homem louro e o povo todo só olhavam para as pedrinhas. Não falavam nada. E o Malasartes completou com a mesma entonação do dono da estalagem:
- O que foi? O amigo não acredita?
O estalajadeiro ficou vermelho de ódio. Mas o povo todo deu uma gargalhada daquelas. Era bem feito. Um homem, que vivia de enganar os outros, foi finalmente enganado. Mas o dono da estalagem, ainda não se dando por vencido, falou:
- Se isso for verdade... esse seu sonho aí... o seu quarto deve estar cheio de pena de anjo! Eu vou lá catar...
Mas o amarelo interrompeu o homem louro.
- Ih, meu amigo, não tem, não! Não tem umazinha sequer! Os anjos me disseram que São Pedro, o chaveiro do céu, não está satisfeito com essa história de fazer travesseiro com asa de anjo. O Porteiro Celeste disse que era até pecado! Acho que é por isso que os anjos não lhe contaram o segredo da escada. Mas contaram para mim! Os bichinhos ficaram com as asinhas paradas. Nem mexiam! Não perderam uma peninha! É melhor o amigo parar com esse negócio de fazer travesseiro com asa de anjo! É pecado!
O povo todo deu uma gargalhada ainda maior. E o Pedro ainda disse:
- Como gostei muito do seu serviço, vou lhe dar mais duas pedrinhas formando assim... oito milhão! É um agrado! Uma gorjeta! Pelos serviços prestados!
O homem bufava e o amarelo aconselhou:
- Não perca essas pedrinhas! Elas valem muito!
O caipira bateu de leve no chapéu e se despediu:
- Obrigado pela estadia e... uma boa tarde, amigo!
O malandro disse isso e foi embora. O povo todo deu vivas pela esperteza do amarelo. O dono da estalagem, sem poder fazer nada, espumava de raiva. E o Pedro Malasartes continuou sua viagem.

Adaptação de Augusto Pessôa

UMA HISTÓRIA - IDADES


Minha tia Leonor confessou para mim no dia que fez setenta anos:

- Sinto como se tivesse dezoito! O tempo não passa! Só percebo que o tempo passou quando me olho no espelho!

O tempo é assim: um safado. Os dias voam... a semana passa rápido... hoje é segunda, amanhã já é sexta. E o ano? Hoje é janeiro... amanhã pode já ser junho ou até dezembro....
Mas por dentro a gente não sente isso.
Por dentro... o tempo não passa! Mesmo com toda maldade do espelho, a gente fica com aquela idade.... a idade que a gente quer! Pelo menos alguns conseguem isso! Minha tia Leonor conseguiu!!
Eu tenho trinta!
Quantos anos você tem?

A RÃ E O BOI - VÍDEO

A RÃ E O BOI - VÍDEO
Apresentação de Augusto Pessôa no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2010. Clique na imagem e assista a história

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ
Clique na imagem e assista a hitória

UMA APOSTA (VÍDEO)

UMA APOSTA (VÍDEO)
Conto de Artur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

LIVROS LEGAIS

  • GRAMÁTICA DA FANTASIA de Gianni Rodari - Summus Editorial.
  • GUARDADOS DO CORAÇÃO – Memorial para Contadores de Histórias de Francisco Gregório Filho - Editora Amais.
  • FÁBULAS ITALIANAS de Ítalo Calvino - Editora Companhia das Letras
  • DICIONÁRIO DE FOLCLORE BRASILEIRO de Câmara Cascudo - Editora Itatiaia
  • VASOS SAGRADOS de Maria Inez do Espírito Santo - Ed Rocco
  • MEUS CONTOS AFRICANOS - seleção de Nelson Mandela - Ed Martins
  • LENDAS BRASILEIRAS de Camara Cascudo - Ediouro
  • CONTOS TRADICIONAIS DO BRASIL de Camara Cascudo - Ed Itatiaia
  • CONTOS POPULARES DO BRASIL de Silvio Romero - Ed Itatiaia

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)
Peça teatral baseada no conto popular MARIA BORRALHEIRA com Augusto Pessôa e Rodrigo Lima. Direção Rubens Lima Junior. Clique na foto e assista a um trecho da peça.

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)
Clique na imagem e veja a resenha do livro FELIZES PARA SEMPRE

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2009

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)
Conto Africano. Clique na imagem e assista ahistória

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Cliuqe na imagem e assista a um trecho do espetáculo

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo.

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assita a um trecho do espetáculo

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação.

O MARIDO FIEL - VÍDEO

O MARIDO FIEL - VÍDEO
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa. Clique na imagem e assista a história.

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)
conto popular adaptado por Augusto Pessôa. CLIQUE NA IMAGEM E ASSISTA AO VÍDEO

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)
Cena do espetáculo A MOURA TORTA. Clique na foto e veja a cena

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo em cartaz no teatro do Jockey - Gávea

JABUTI

JABUTI
Apresentação no Simpósio Internacional de contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a um trecho da apresentação

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça  (VÍDEO)
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)
Clique na imagem e veja um clipe do espetáculo

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)
conto de Nelson Rodrigues. Adaptação e narração de Augusto Pessôa

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)
Peça baseada no conto popular O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (2003). Clique na foto e veja um trecho do espetáculo.

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)
Conto de Arur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)
Contação de Histórias. Clique na imagem e assista a contação.

MENINA FACEIRA

MENINA FACEIRA
Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no Instituto Moreira Salles - set 2009. Clique na imagem e veja a apresentação.

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)
NA CASA DE SEU PEDRÃO. Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE CONTADORES DE HISTÓRIAS - SESC RJ (2008). Clique na imagem e veja a apresentação

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)
O Rei Doente do Mal de Amores - apresentação no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a cena.

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)
Apresentação do espetáculo O REI DOENTE DO MALDE AMORES no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a apresentação

MALASARTES! (VÍDEO)

MALASARTES! (VÍDEO)
Peça baseada nas histórias de Pedro Malasartes. Clique na foto e veja um trecho do espetáculo

O JABUTI E A FRUTA

O JABUTI E A FRUTA
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a história

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Crítica do espetáculo publicada no JORNAL DO BRASIL

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica sobre o espetáculo

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica do espetáculo.

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro
Livro de Augusto Pessôa publicado pela Editora ROCCO (2007)

FELIZES PARA SEMPRE

FELIZES PARA SEMPRE
Livro com adaptações de Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2003)

CONTOS DE HUMOR

CONTOS DE HUMOR
Contos de Artur Azevedo - organização Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2008)

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL
CONTANDO HISTÓRIAS NA BIBLIOTECA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS