AUGUSTO PESSÔA - CONTADOR DE HISTÓRIAS - (BRASIL)

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Ator, Cenógrafo, Figurinista, Arte Educador Dramaturgo e Contador de Histórias. Bacharelado em Artes Cênicas (Habilitação em Interpretação e Habilitação em Cenografia) pela UNI-RIO - Universidade do Rio de Janeiro.

A PANQUECA FUGITIVA, O RESMUNGÃO E OUTROS CONTOS NÓRDICOS

A PANQUECA FUGITIVA, O RESMUNGÃO E OUTROS CONTOS NÓRDICOS

HISTÓRIAS DE NATAL

HISTÓRIAS DE NATAL
livro de contos populares adaptados e ilustrados por Augusto Pessõa - Ed. Escrita Fina (2010)

HISTÓRIAS DE BRUXAS - livro

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

HÁ MICRÓBIOS - crônica (fragmento)

Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato com um extraterrestre. Desconfiei quando ele disse "Vocês são engraçados ... " e eu perguntei: - "Vocês", quem? "Vocês" brasileiros? "Vocês" carecas? "Vocês" míopes? Destros? Cardiopatas? Torcedores do Internacional? E ele respondeu: - Vocês, gente.
E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o Universo inteiro atrás de um planeta para ser colonizado pelo seu.
Achava que tinha, finalmente, encontrado este planeta. Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que faltava no planeta do qual viera. Diria no relatório que não seria problema invadir a Terra, pois estávamos recém começando a usar o laser como arma, e ainda não descobríramos o poder destrutivo do kiwi, e seríamos facilmente dominados.
Perguntei qual era a riqueza natural que nós tínhamos e eles não e o extraterrestre respondeu "A poesia". E perguntou: - Você sabe que a Terra é o único planeta do Universo conhecido em que as pessoas dão nome aos ventos? Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando "Taí, somos todos poetas e não sabíamos" e perguntei se não havia poetas no planeta deles. Claro que não, disse ele. Ou como eu imaginava que eles tinham se tomado uma civilização tão avançada?

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
JORNAL O GLOBO - PRIMEIRO CADERNO - 27/12/2007

A CHACHATATUTU E A FÊNIX - conto tibetano

Vocês conhecem a Chachatatutu? Na língua do Tibet, é pequeno pássaro cinzento que faz o seu ninho na erva. Ele é o mais pequeno e o mais feio de todos os pássaros, enquanto que o mais belo e o mais nobre é a fênix.
Uma vez uma chachatatutu pôs três ovos no ninho e todos os dias, enquanto ela saía, um camundongo que vivia num terreno próximo, vinha sorrateiramente e tentava comer os ovos. Dos três ovos da ninhada dois já tinham desaparecido na boca do camundongo. A pobre chachatatutu, desesperada, foi ter com a fênix para reclamar justiça contra o camundongo.

- Oh, fênix, - disse ela tristemente - rainha de todos os pássaros! Um camundongo malandro devorou dois dos três ovos da minha ninhada. Eu já perdi dois passarinhos e por isso venho pedir vingança.

A fênix não se dignando sequer a incomodar-se por uma pequeníssima chachatatutu, não muito maior que um polegar, disse-lhe asperamente:

- Não sabe quanto eu estou ocupada durante todo o dia? Como se atreve a importunar-me com tal ninharia? E olha, são as mães quem deve olhar pelos seus filhos! Se não é capaz de cuidar deles, quem o vai fazer? O seu dever é velar pela sua família!

A chachatatutu indignada pela dureza da fênix exclamou com um ar de desespero:

- Se venho falar é porque você é a rainha dos pássaros. Mas me desprezas, tomando a minha desgraça por uma insignificância. Talvez faça mal. Às vezes uma ninharia pode ser a causa duma grande desgraça. Se isso um dia acontecer não me ponha à culpa!

A fênix não prestou nenhuma atenção ao que ela dizia, limitando-se a responder como que distraidamente:

- Sim... sim... Pois, pois....

A chachatatu receando que a fênix não tivesse ouvido bem disse:

- Porque é que você está falando "sim... sim..."? Se um dia acontecer pra você uma grande desgraça, por causa de uma ninharia, não me punha a culpa! A culpa será só sua!

A fênix mais uma vez não ligou ao que ela dizia e continuava murmurando com impaciência:

- Sim... sim... Pois, pois....

A chachatatutu vendo que não fazia ali mais nada, voltou sem esperança para o seu ninho. Depois num acesso de cólera, pegou um galho pequeno, fez dele uma flecha, empoleirou-se num ramo duma árvore e esperou, com os olhos bem abertos, à volta do camundongo assassino.
Pouco depois, o camundongo apareceu para comer o último ovo. A chachatatutu, sufocando de raiva lançou a flecha com toda a força, direitinha ao olho do camundongo. A dor foi tão forte que este se rebolou dando voltas e mais voltas, aos gritos. Cego, foi "mergulhar" mesmo nas narinas dum leão que fazia a sesta à beira-mar. Este acordando bruscamente e sem saber o que estava acontecendo, saltou desesperadamente e mergulhou na água. Na água, um dragão nadava preguiçosamente. Quando viu assim de repente, o leão cair perto dele, elevou-se subitamente no ar com medo de ser devorado, e sem querer esbarrou no ninho da fênix, quebrando o ovo que lá se encontrava. A fênix, louca de raiva, injuriou o dragão:

- Seu idiota! Não sabe que nós, as fênix, não podemos pôr senão um ovo por ano e que temos somente um filho? Porque é que voa assim como um louco para fora das águas e derruba o meu ninho e quebra o meu ovo?
- Não sou eu quem tem a culpa, fênix. - respondeu o dragão. - Enquanto eu me banhava tranqüilamente um leão saltou para a água para me devorar. Então, naturalmente, eu voei para o céu. Derrubei o seu ninho por acidente; a culpa não foi minha! Vá falar com o leão que saltou sobre mim.

Então a fênix foi procurar o leão.

- Ah, sábia fênix, - disse o leão - não me amaldiçoe. Dormia eu sossegadamente na praia, quando, de repente, um camundongo entrou nas minhas ventas. Com a dor, saltei para o rio. Como vê à culpa não é minha; é do camundongo. Ele é quem merece a sua censura, não eu.

E assim a fênix foi procurar o camundongo.

- Ah, nobre fênix, - disse timidamente o camundongo - a culpa não foi minha, mas da chachatatutu. Passeava eu ali pela grama quando ela me feriu no olho com uma flecha. Com a dor cai no primeiro refúgio que encontrei e por acaso foi nas ventas de um leão. Toda a culpa é da chachatatutu. É ela quem deve ser castigada.

Nada mais restava à fênix senão ir falar com a chachatatutu. E a pequena ave respondeu:

- Oh, fênix, eu bem tinha dito. Você me desprezou não querendo nem ouvir o que eu dizia, porque tenho um corpo pequeno, asas curtas, poucas forças e nenhuma beleza. Tomou o meu desgosto por uma bagatela dizendo que são as mães quem deve velar pela sua ninhada e que não devia aborrecer a sua nobreza. Porque é que não olhou pelo seu ninho e anda por aí a arranjar aborrecimentos com todo o mundo? O camundongo pode comer os meus ovos, porque é isso uma insignificância, mas quando o dragão derruba o seu ninho e quebra o seu ovo, então isso já é um desastre! É essa a sua justiça? Não avisei que se um dia um pequeno nada ocasionasse um desastre não culparia a mais ninguém senão a você mesma? Porque é que vem então me aborrecer?

E a fênix, envergonhada sem dizer mais nada, voou pelos ares de crista baixa.
Conto Tibetano

sábado, 13 de novembro de 2010

MOTOR A BOTO (CAUSO)

Precisava o José Félix de Morais ir a São Félix do Araguaia que distava aproximadamente 300 km rio abaixo de onde residia. Não tinha ele motor. Embarcou com seu filho Jeová, benzeu-se, rezou e começou a remar rumos ao seu destino.

Conta ele que havia já remado mais ou menos 70 km, quando passou um barco com um motor de 25 hp. Pediu carona ao piloteiro que apenas acenou e se foi.
Mais 30 km abaixo, pediu ao seu filho Jeová:

- Jeová, meu “fio”, arpoa um boto aí por que eu estou cansado. Não agüento mais remar.

Assim dito, assim feito. Arpoado o boto, continuou:

- Segure firme a groseira (corda) que vou aqui ao leme.

E o boto rebocou o barco rio abaixo.
Descendo mais alguns 50 km, lá vai o barco com o motor de 25 hp.

- Desta vez fui eu, disse o José Félix, quem deu tchau para o piloteiro, quando passamos por ele.

E, continuando o boto desembestado rio abaixo, foi quando o José Félix deu conta e falou alto:
 
- Jeová, meu “fio”, corta a groseira. Olha aí a placa! Já estamos em Belém do Pará...
 
Causo de José Félix de Morais

TURBILHÃO

Começo a escrever isso porque não quero mais pensar.

Pelo menos agora.
Estou exausto. Mas a cabeça não para.
Não quer parar.
Minha cabeça é uma tempestade. Um maremoto. Um vulcão.
Uma explosão criadora de idéias. Nada genial.
Idéias que só interessam a mim. Num mundo pequeno.
Um pequeno mundo imenso.
Não paro de pensar. De sentir. De rodopiar.
Mesmo dormindo. Os sonhos são detalhados.
Os cenários milimetricamente elaborados.
Os figurinos cortados, costurados e encantados por exímios alfaiates e mágicas costureiras.
Isso. Cenários e figurinos. Viagens teatrais. Cinematográficas.
Histórias mirabolantes. Incansáveis.
Queria ter um outro que pensasse por mim em alguns momentos.
Para me permitir um descanso. O outro pensava por mim enquanto descasava minha cabeça numa almofada de chitão feita com delicadeza por minha mãe.
Queria ter momentos de branco. Ou de pensar pouco. Quase nada.
Para muitos isso seria a morte. Mas não é.
Sei da morte. Depois de tantas perdas tenho um certo conhecimento.
Não quero ser íntimo dela, mas não tenho medo.
Um leve susto. Um incomodo. É o que ela me desperta atualmente.
Não quero morrer tão cedo.
Mas queria raros momentos de branco.
Talvez, um dia, me arrependa desse desejo.

Texto de Augusto Pessôa

O PAPAGAIO (CAUSO)

Diz que era um casal que tinha um papagaio danado. Isso aconteceu há muito tempo. Nessa época os telefones ainda eram de disco. O esperto do papagaio tirava o telefone do gancho e, com o bico, discava. A conta vivia alta. O homem ficava furioso e dizia para a mulher:

- Mulher, tem que parar com essas ligações! Assim não tem dinheiro que chegue!!!
- Mas não sou eu que ligo, marido!
- E quem é então?
- E eu é que tenho que saber?

O homem ficou com aquilo na cabeça e queria resolver o problema. Um dia se escondeu e ficou de espreita esperando para pegar quem é que fazia as ligações. Não demorou muito e o papagaio tirou o telefone do gancho e começou a discar com o bico. O homem ficou furioso. Saiu do esconderijo, pegou o papagaio e pregou o bicho na parede com as asas abertas. Bem em frente a imagem de nosso senhor crucificado. O papagaio olhou a imagem e perguntou:

- Você ligou pra onde?

Adaptação de Augusto Pessôa de causo
narrado por Zé Fineza em São Sebastião distrito de Vitória da Conquista (BA)

domingo, 24 de outubro de 2010

SEI LÁ (CAUSO)

Era setembro. João, muito falador e brincalhão, com mais oito companheiros ajudava a preparar mais uma de suas pescarias para as barrancas do São Francisco.
Ficariam acampados por 15 dias às margens do rio, em uma fazenda próxima a Pirapora (aproximadamente 350 Km de Belo Horizonte), que por diversas vezes os havia acolhido.
A “jardineira” ficou lotada. Barcos, motores, iscas, muito sal para salgar os peixes, e todas as tralhas de cada um.
Dois dias de viagem, muitos pneus da “jardineira” furados e alguns problemas mecânicos, chegaram finalmente ao seu destino.
A recepção do grupo não poderia ser melhor. Vinham de Belo Horizonte, a capital, e os moradores da região logo apareciam no acampamento, pois traziam muitos presentes para eles, inclusive cobertores e alimentos. Para a molecada não havia coisa melhor.
No dia seguinte, ficaram por conta de montar acampamento, preparar os barcos, organizar toda a estrutura que trouxeram e descansar para começarem a pescar no próximo dia. À noite, fogueira, viola, e muita comida (sabiam que a molecada estaria ali para dividir com eles).
João, depois de umas e outras, resolveu amedrontar as crianças com uma história de arrepiar. Seus companheiros também ouviam e fingiam ser tudo verdade, evitando risos para não estragar a brincadeira.
Contava João que determinada vez saiu para pescar sozinho à noite. Noite de lua nova, rio silencioso e muita escuridão, uma pequena lanterna à mão, conseguiu apoitar embaixo de uma enorme árvore, uma ingazeira. Ouvia o barulho de alguns animais, provavelmente macacos Bugios, iscou seu anzol com um pedaço de minhocuçu, e sentou-se no barco. De repente, começou um vento forte, a água do rio encrespou, os galhos da árvore começaram a se curvar e o barco começou a balançar. A coisa começou a ficar complicada, com a ventania ficando ainda mais violenta e jogando água para dentro do barco. Resolveu ir embora, recolheu rapidamente a linha lançada ao rio e foi retirar a poita. Quando ligou a lanterna para pegar a corda da poita, viu uma enorme mão peluda segurando-se a ela. Era um caboclo d’água.
A molecada atenta e com os olhos arregalados, prestava atenção a tudo que João dizia e à forma como gesticulava.
Desesperado, pegou um facão e desfechou um golpe certeiro naquela coisa. Ouviu um imenso urro, a corda se partiu e um dos dedos peludos acabou caindo dentro do barco. Ligou rapidamente o motor, e com o coração disparado, livrou-se rapidamente daquela situação voltando para o rancho.
Os companheiros de João mal estavam conseguindo se conter em gargalhadas, mas a molecada ficou apavorada. Foram todos para suas casas e a turma de pescadores pode regozijar-se com mais uma do João.
A pescaria estava ótima. Muitos peixes e muita diversão.
Certo dia, já bem à tardinha, João resolveu sair sozinho com o barco.
Motor ligado, foi subindo o rio passando próximo à margem.
A escuridão já se fazia presente. Apoitou embaixo de uma árvore, iscou um anzol com um pedaço de minhocuçu, lançou a linha no rio e sentou-se no barco. Ouvia o barulho de animais. Um forte vento começou de uma hora para outra, o rio começou a ficar cheio de marolas e o barco começou a balançar. Foi neste instante que João começou a prestar atenção na situação que estava envolvido. Tudo que acontecia ao seu redor parecia exatamente como um filme da estória que havia inventado para a molecada. A árvore era uma ingazeira, o barulho era de Bugios e as demais circunstâncias eram coincidentes.
Recolheu rapidamente a linha lançada ao rio, puxou a poita, ligou o motor e saiu em disparada pensando: Eu hein!! Sei lá!

Causo do João narrado pelo pescador Carlinhos (Minas Gerais)

BAIANO (CAUSO)

Diz que era um casal de baianos com uma penca de filhos que resolveram tentar a sorte lá nas terras paulistas. No ônibus apinhado de gente, a mulher que era uma mulata sestrosa, foi dar o peito para o caçula de colo mamar. Mas o menino não pegava o peito de jeito nenhum. Só chorava. O homem encafifado reclamou:

- Dá leite pra esse menino!
- Ele não quer pegar o peito – respondeu a mulher.

Estavam nisso quando, do fundo do ônibus, uns estudantes começaram uma brincadeira fazendo assim:

- MIAU... MIAU... MIAU...

O baiano não teve dúvida. Pegou o facão e foi falando:

- XANIM... XANIM...

Passou.
Até que eles chegaram em São Paulo. Em baixo de um viaduto a mulher quis fazer um café. Mas não tinha coador. Mandou o marido comprar. O baiano juntou os trocados e foi numa lojinha. Pediu um coador. Mas, o paulista que o atendeu quis brincar com ele. Pegou um sutiã, embrulhou direitinho e deu para o baiano. O homem pegou o pacote e foi entregar para a mulher. Quando ela abriu deu com aquilo:

- Mas, homem, isso não é coador! É um sutiã!

O baiano voltou furioso a lojinha e pediu para trocar. O paulista, ainda querendo brincar com o outro, pegou uma luva, embrulhou direitinho e entregou para o baiano. Mas o outro falou assim:

- Agora você não me engana que eu vou abrir aqui!

E desembrulhou o pacote. Vendo a luva o baiano ficou furioso:

- Paulista danado! Primeiro você me dá um sutiã de mulher e agora me dá um sutiã de vaca!!!

Adaptação de Augusto Pessôa de causo
narrado por Zé Fineza em São Sebastião distrito de Vitória da Conquista (BA)

sábado, 9 de outubro de 2010

A MÃE D´ÁGUA - conto popular

Diz que tinha um pescador que morava numa choupana pobre. Um dia, ele estava andando pela praia quando ouviu um canto triste. Foi encantado por esse canto... procurou aqui e acolá... até que encontrou uma mulher linda que cantava sentada numa pedra. O homem quis saber:

- Quem é você?

- Sou a Mãe D´Água! - respondeu a mulher.

O homem ficou apaixonado por tanta beleza e quis casar com ela. Mas a Mãe D´Água disse:

- Caso com você! Mas tem uma condição: você não pode nunca mal dizer de mim e de todos os seres do mar!

O pescador aceitou e levou a Mãe D´Água para sua choupana pobre.
De uma hora para outra a vida do homem mudou. A riqueza entrou com força na vida do pescador. A choupana virou um palácio ricamente decorado. E a fortuna começou: roupas, comidas, bebidas, jóias, muitos criados. Uma beleza! E além disso tudo, a formosura da mulher que morava com ele. Os dois viviam numa eterna lua de mel.

O tempo passou.

O pescador estava cada dia mais rico. Vivia mais tempo na rua cuidando dos negócios do que em casa. A mulher cheia de filhos mantinha-se linda. Mas ela começou a cansar. Não tinha mais os carinhos e afagos do marido que estava sempre preocupado com seus trabalhos e negócios. E ela foi mudando: os cabelos ficaram brancos e ralos, o corpo ficou roliço e uma preguiça tomou conta de sua vontade. Passava os dias, deitada na cama, comendo e engordando. Tudo virou um caos: as crianças viviam sujas e famintas, os criados brigavam entre si e a casa desarrumada. O pescador se sentia melhor na rua do que em casa. A sua esposa não era, nem de longe, a bela mulher que ele encontrou na praia.
Um dia, o homem chegou em casa e encontrou os criados brigando com facas, as crianças chorando e uma bagunça que tomava todo o lugar. Foi ao quarto e encontrou a mulher deitada na cama comendo e engordando. O pescador se aborreceu e gritou:

- Que inferno!! Essa casa está uma desgraça e você ai deitada como uma porca! Mal digo de minha mulher e de todos os seres do mar!!

Foi ele dizer isso que a mulher voltou a ser linda. Mais deslumbrante do que quando o pescador a encontrou na praia. Ela se levantou. Estava vestida com um maravilhoso vestido feito com as águas do mar e disse:

- Mãe D´Água vai embora! Mãe D´Água vai partir!

A mulher foi saindo e tudo ia atrás dela: roupas, comidas, bebidas, jóias, criados, os filhos, o luxo e a casa. O pescador ainda gritou:

- Fica que eu ainda te amo!

Mas já era tarde. Tudo sumiu nas águas do mar e o pescador se viu novamente na sua pobre choupana.

Adaptação de Augusto Pessôa

A DOENÇA DO REI - causo

O Rei estava cansado das espertezas de Bocage. Ele queria mandar prender o espertalhão, mas não conseguia. Mandou chamar os sábios do reino para resolver o problema. E os sábios tiveram uma idéia:

- Majestade, vamos inventar que vossa excelência tem uma doença rara que faz o senhor não sentir cheiro de nada, não sentir gosto de nada e nem o deixa mentir! Mandamos Bocage curar a sua doença! Ele não vai conseguir e o senhor manda prendê-lo por isso!

O Rei achou a idéia excelente e mandou chamar o espertalhão. Bocage entrou nos aposentos reais e viu o monarca deitado na cama com cara de muito doente. Os sábios foram até ao malandro e disseram:

- Bocage, só você para salvar o nosso Rei! Ele está com uma doença muito estranha: não sente nem cheiro, nem gosto de nada! E nem pode mentir! Você sabe como curar isso?

O malandro logo percebeu que era uma armação, mas falou assim:

- Mas é claro que eu sei! Esperem aqui que vou buscar o remédio!

O espertalhão foi até o seu quarto e fez cocô numa bacia. Pegou umas cápsulas e encheu todas com aquela nojeira. Colocou tudo num vidrinho e voltou aos aposentos do Rei falando assim:

- Cá está o remédio que vai curar os seus males, Majestade!

Ninguém entendeu nada. E o Bocage pegou uma cápsula e entregou ao Rei.

- Abra e sinto o cheiro, Majestade!

O Rei abriu e deu uma cafungada naquilo. Sentiu aquele cheiro terrível e fez uma cara horrível. E o Bocage falou:

- Sentiu o cheiro! Já tá melhorando! Agora engula, Majestade!

E o malandro não deu tempo do Rei piscar. Pegou aquele troço e enfiou na boca do Monarca. O Soberano sentiu aquele gosto horroroso e falou:

- Tem gosto de COCÔ!

E o Bocage terminou:

- E é isso mesmo: sentiu cheiro, sentiu gosto e falou a verdade! Tá curado!!

Adaptação de Augusto Pessôa de causo
narrado por Zé Fineza em São Sebastião distrito de Vitória da Conquista (BA)

sábado, 25 de setembro de 2010

DEPUTADO - causo de Zé Fineza

Um candidato a deputado estava fazendo campanha no distrito de São Sebastião. O sol estava rachando o chão e o homem ficou com uma sede danada. Parou numa casa e pediu água para uma mulher.

- Pois não, seu moço! Vou lhe dar um copo d´água! - e gritou pra dentro da casa – Meu filho! Deputado! Vem cá, Deputado!

O menino não vinha, mas o candidato achou aquele nome muito interessante. E a mulher continuou chamando:

- Deputado, tô chamando! Vem cá!

O menino magrinho veio e a mãe mandou ele pegar um copo d´água. O garoto foi, voltou rápido e entregou a água para o candidato. O homem matou a sede e comentou:

- Que bonito o nome que a senhora deu para o seu filho!

E a mulher respondeu:

- Ah... Não é o nome dele, não! É apelido! O nome dele é José Luiz! Mas andou roubando pela vizinhança e o apelido pegou...

Adaptação de Augusto Pessôa de causo
narrado por Zé Fineza em São Sebastião distrito de Vitória da Conquista (BA)

A FESTA NO CÉU - conto popular

Diz que antigamente o sapo não era como é hoje. Era elegante, com umas pernas compridas. Uma beleza!! E ia ter festa no céu. Mas só para os bichos que voavam. E o sapo conversava com o urubu que era o violeiro da festa:

- Pois é, compadre urubu. A festa vai ser uma beleza!! Não vejo a hora de estar lá!!
- E o amigo sapo vai a festa?
- Claro, compadre urubu! Claro que vou!!
- Mas vai como?
- Como? Voando! E que de outro jeito poderia ser?
- E sapo voa?
- Voa! Eu, pelo menos, sei voar!!
- Essa eu pago pra ver!

No dia da festa, o sapo foi na casa do urubu mostrar a sua roupa. O urubu, que era o violeiro da festa, se espantou com amigo:

- Nossa que elegância! Mas tão cedo e já pronto?
- É que vou bem devagarzinho. O meu voar é lento... elegante! Não saio voando apressado por aí!
- Então está certo, compadre sapo! Nos encontramos lá!

O urubu foi se arrumar para a festa. O sapo aproveitou a distração do amigo e entrou dentro de sua viola. O urubu se aprontou, pegou a viola, botou nas costas e saiu voando. Mas reclamou:

- Essa viola está pesada!!

O sapo, dentro da viola, nem se mexia. Quando chegou no céu, o urubu deixou a viola num canto e foi descansar um pouco. Foi o tempo certo para o sapo sair da viola. A festa estava realmente uma beleza! Todos os bichos que voavam estavam lá: o beija-flor muito elegante, a coruja séria olhava tudo, os papagaios fazendo aquela bagunça e todos os outros que voavam. E no meio deles, o sapo que se esbaldava na festa. Comia, bebia e dançava. Dançou com a rolinha, com a maritaca, com a gaivota. O urubu tocava sua viola e comentava:

- Não é que o sapo veio mesmo!!

A festa estava terminando. Os convidados foram saindo. O urubu parou de tocar, deixou sua viola num canto e foi comer alguma coisa. Foi o tempo certo para o sapo entrar na viola. O urubu botou a viola nas costas, se despediu dos que ainda estavam lá e saiu. No meio do caminho, comentou:

- A viola está mais pesada!!

O sapo, dentro da viola, depois que tinha comido e bebido todas, não conseguia se segurar. Rolava de um lado para outro. O urubu estranhou o barulho, olhou dentro da viola e deu de cara com o sapo.

- Então é assim, compadre sapo, que o senhor foi na festa? É esse o seu voar elegante? Pois se não sabia voar vai aprender agora!!

Dizendo isso o urubu virou e sacudiu a viola. E o sapo foi caindo... foi caindo... lá em baixo um monte de pedras. E o sapo gritava:
- Afasta pedra se não eu me acabo!!

A pedra nem se mexia. E o sapo caindo e gritando:

- Afasta pedra se não eu me acabo!!

A pedra nem se mexia. E o sapo se esborrachou na pedra. Ficou achatado como ele é até hoje. Mas ficou com uma saudade da festa. E é por isso que o sapo anda pulando tentando voltar para a festa no céu.

Adaptação de Augusto Pessôa do conto popular “A FESTA NO CÉU”

domingo, 12 de setembro de 2010

CANCELINHA - causo

Era uma vez um menino danado que não tinha os dois dentes da frente. Por isso todo mundo chamava ele de Cancelinha. Na escola o garoto aprontava. Um dia ele estava na sala de aula de cabeça baixa. A professora, que estava explicando a lição, reparou nisso e falou:

- Cancelinha, você está ouvindo o que eu estou falando?

Sem levantar a cabeça, o danado respondeu:

- Tô, fessora!
- Mas você está de cabeça baixa! Como pode estar ouvindo?
- Eu escuto com os ouvidos, fessora! Não com os olhos!

De outra vez, o moleque estava comendo uma banana na sala. Descascou a fruta e jogou a casca no chão. Nisso a professora entrou, escorregou na casca e caiu no chão de pernas pra cima. Rapidamente a mulher puxou a saia pra baixo e levantou. Com uma cara zangada ela olhou os alunos e perguntou:

- João, o que você viu?
- Seu tornozelo, fessora!
- Uma semana de suspensão! Pedro, o que você viu?
- Suas pernas, fessora!
- Um mês de suspensão!

Nisso o Cancelinha arrumou e guardou suas coisas. Já ia levantando quando a professora perguntou:

- Onde você vai, Cancelinha?
- Se eu disser o que eu vi... tô expulso!

Adaptação de Augusto Pessôa de causo
narrado por Zé Fineza em São Sebastião distrito de Vitória da Conquista (BA)

O PEQUENO POLEGAR - conto popular

Era uma vez um casal que tinha doze filhos. Um deles era muito pequeno. Do tamanho de um dedo polegar e por isso todos o chamavam de Pequeno Polegar.
Essa família era muito pobre e muitas vezes não tinham o que comer. Um dia os pais resolveram abandonar seus filhos na floresta.

- Quem sabe assim eles não tem melhor sorte! - disse o pai.

O Pequeno Polegar, ouviu a conversa e foi buscar umas pedrinhas nas areias das margens do rio. Pela manhã, o pai levou os filhos para a floresta. Andaram muito até que o homem disse para os meninos:

- Fiquem aqui que eu vou cortar lenha!

Os meninos ficaram, mas o pai foi para casa e deixou os filhos perdidos. As crianças choraram com medo das feras. O Pequeno Polegar acalmou os irmãos e os levou para casa, seguindo as pedrinhas que, na vinda, havia deixado cair pelo caminho. O pai tinha recebido algum dinheiro, e tendo comprado comida, estava cheio de remorsos:

- Ai! Meus filhinhos! Se eles estivessem aqui!

O Pequeno Polegar, que estava com seus irmãos atrás da porta, apareceu e foi abraçado pelos pais.
Tempos depois, voltou a fome, e os pais pensaram em deixar os filhos na floresta de novo. O Pequeno Polegar, ouvindo a conversa correu para fora, mas encontrou a porta fechada. Foi na despensa e pegou alguns grãos de arroz. De manhã, aconteceu igual da outra vez: o pai deixou os filhos no meio da floresta. Mas quando o Pequeno Polegar quis voltar, seguindo os grãos de arroz, viu que os passarinhos tinham comido tudo. Ficaram dessa vez perdidos mesmo. Veio a noite, Polegar subiu numa árvore e lá de cima avistou uma luzinha. Desceu, reuniu os irmãos e foram na direção da tal luz.
Chegaram lá, encontraram uma casa grande e bonita. Bateram pedindo pousada. A mulher que os recebeu era dona Papona que tinha o hábito de comer gente. Ela se fingiu de boazinha e deu para cada menino um gorro de lã. O marido, que era também um Papão, quando chegou, soube de tudo e mandou que a mulher guardasse os meninos para ele comer depois.
Muito curioso, o Pequeno Polegar começou a fuçar em tudo na casa. Até que abriu uma porta e viu um grande tesouro. Mas ficou quieto.
Tarde da noite a Papona deitou os meninos numa cama, perto de outra em que estavam dormindo as filhas do casal Papão. Eram doze meninas cada uma com uma coroa de ouro na cabeça.
Quando o Papão e a Papona foram dormir, o Pequeno Polegar tirou os gorros de lã da cabeça dos irmãos e trocou pelas coroas das filhas do Papão.
No meio da noite, o Papão teve vontade de matar os meninos. Pegou uma espada e foi para o quarto. Estava tudo um escuro só e o malvado foi apalpando as cabeças. Encontrou as coroas nas cabeças dos meninos e disse baixinho:

- Arre! Eu ia matando minhas filhinhas!

Passou a mão pelas cabeças das filhas e achou os gorrinhos de lã:

- Ah! Aqui estão eles!

E passou a espada degolando as filhas.
Assim que o Papão foi dormir, Polegar acordou os irmãos e fugiram bem depressa.
De manhã, a Papona foi ao quarto das filhas e, quando viu aquela cena horrível, desmaiou. O Papão ficou com muita raiva. Pegou suas botas de sete léguas e foi procurar os fujões.
Polegar percebeu o perigo e se escondeu, junto com os irmãos, numa gruta. O Papão estava muito cansado e, parando perto da gruta, deitou e pegou no sono. Polegar, bem devagarinho, tirou as botas do Papão e desembainhando a espada cortou o pescoço do malvado. Depois calçou as botas de sete léguas e partiu na direção da casa do Papão. Chegando lá, chamou a Papona e falou assim:

- Seu marido está prisioneiro e mandou buscar seu tesouro!

A Papona entregou tudo. Era um tesouro enorme. Polegar carregou o que podia e voltou para junto dos seus irmãos. Depois eles encontraram o caminho de casa. Os meninos entregaram o tesouro a seu pai e a família nunca mais teve problemas para comer. E todos viveram felizes para sempre.

Adaptação de Augusto Pessôa

UMA BOA NOTÍCIA

Publicado no Jornal A voz da Serra em 03/09/2010

Pró-Leitura realiza oficina de Contadores de Histórias

Encontros serão realizados a cada sábado, na Biblioteca, durante o mês de setembro
As oficinas de Contadores de Histórias, realizadas pela Secretaria Pró-Leitura, e que aconteceram aos sábados do mês de julho, na Biblioteca Pública Municipal de Nova Friburgo, comprovaram a vocação leitora do município.

“Se gostei da oficina de contadores de histórias”, diz a professora de literatura portuguesa, Cristina Maria Paes dos Santos, que logo completa: “o que mais me impressionou foi ver como se pode dar, na prática, o encontro do saber com o sabor, encontro com que todo professor sonha, mas que, infelizmente, a instituição ‘escola’ não tem conseguido realizar, frustrando, muitas vezes, no nascedouro, potencialidades que poderiam promover a maravilha do humano”.

Na oficina, segundo ela, “em cada encontro, o melhor de nós aflora e permanece ali conosco, vivo, vibrando, nutrindo-se de experiências sensíveis que propiciam novas florações. Partilhando histórias, cantigas, vivências textuais e hinos à natureza, como quem partilha o pão da vida. Gregório dá-nos grãos de futuro. Muito obrigada pela sementeira que, tão gentilmente, nos oferece! Ela multiplicará cento por um!”

Experiências e vivências

Mais de 60 pessoas – enfermeiros, comerciários, professores, artistas, auxiliares de limpeza, bibliotecários, psicólogos, terapeutas, estudantes, pedagogos, aposentados, engenheiros, médicos, auxiliares de enfermagem e profissionais de diversas áreas –, vindas dos mais diferentes pontos da cidade e de diferentes distritos e municípios, lotaram a biblioteca. Todos participaram de demonstração espontânea de reconhecimento da importância de uma ação conjunta de promoção de leitura, envolvendo diferentes setores da sociedade. Esse ‘caldeirão’ de profissões, conhecimentos, idades e origens, produziram uma saudável mistura de experiências e vivências.
Diante de tanta receptividade, a Biblioteca, cada vez mais viva, anuncia sua programação para o mês de setembro:
Nova oficina de contadores de histórias, será realizada aos sábados (4, 11, 18 e 25 de setembro e 2 de outubro), das 9h às 12h.
As inscrições estão abertas.

Também estão programados círculos de leitura das 18h às 19h 30, sempre às quartas-feiras, com exceção da última quarta-feira do mês, quando são realizados os círculos de leitura do Sesc.

Curso de esperanto, com a professora Maria Lucia Matheus, às sextas-feiras, das 18 horas às 19h30, com início no mês de setembro, e duração de três meses.
As inscrições estão abertas.

Palestra da psicóloga Sueli Meirelles, dia 22, às 19h sobre Regressão de memória.

“Aproveitamos para convidar escolas e professores para agendarem visitas à biblioteca”, diz Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque, subsecretária da Pró-Leitura.

sábado, 4 de setembro de 2010

AS POSTAS DO PEIXE

Numa terra distante, um homem que era pescador um dia, indo à pesca, agarrou um peixe muito bonito. O peixe, quando se viu apanhado e na terra, falou assim para o pescador:

- Senhor pescador, me jogue de novo na água! Eu prometo uma grande pescaria! E se o senhor me pegar outra vez pode me levar.

O pescador não acreditou quando viu o peixe falando, mas fez o que ele pedia. E nesse dia foi tão grande a pesca, que o pescador já não sabia o que fazer com tanto peixe.
Passados alguns dias tomou a pescar no mesmo lugar e agarrou outra vez o tal peixe bonito. Então o peixe disse ao pescador:

- Leva-me para sua casa e faça de mim doze postas. Dê três à sua mulher, três enterre no quintal, três à sua cadela e três jogue no mar.

O pescador assim fez. E, passado um ano, a mulher deu a luz a três meninos, no quintal surgiram três lanças, a cadela teve três leões e na praia surgiram três navios.
Quando os filhos chegaram a ser homens pediram ao pai que desse a cada um deles uma lança, um leão, um navio e licença para irem viajar.
O pai e a mãe com muito custo permitiram a viagem e eles foram para o mar. Então cada um tomou um rumo: o mais velho foi para o norte, o do meio para sul, e o mais novo para leste. Mas antes de se separarem combinaram de se juntar naquele mesmo lugar daí a um ano. Despediram-se e cada um partiu para o seu destino. O mais velho, depois de ter navegado muitos dias sem encontrar uma terra, chegou a uma ilha onde havia uma torre muito grande. Foi ficar numa casa onde moravam três moças e ao fim de uma semana casou-se com a mais velha delas; depois de casado perguntou à mulher que torre era aquela, e a mulher disse que era a "torre da morte", que quem lá ia não voltava. E o mais velho dos irmãos falou:

- Pois eu hei de ir e voltar!

À noite, quando se deitou pôs a lança entre ele e a mulher, e no outro dia foi direto à torre com o seu leão. Bateu à porta e veio uma velha, que lhe perguntou o que ele queria, e ele respondeu que queria ver a torre. A velha disse, então, que se ele queria ver a torre, eles precisavam antes lutar. O rapaz estranhou. Não queria brigar com a velha, mas terminou concordando. E a velha pediu que ele prendesse o seu leão com um cabelo dela, porque tinha muito medo daqueles animais. O rapaz pegou um fio de cabelo da velha e prendeu o leão. Depois começaram a lutar. E não é que a velha lutava bem?! E quando o rapaz viu que iria ser derrotado, gritou:

- Avança, meu leão!

Mas a velha também falou:

- Engrossa, meu cabelão!

Então o cabelo que prendia o leão tomou-se numa corrente muito forte de onde o leão não conseguia escapar. A velha venceu o rapaz e depois de joga-lo no chão cortou sua cabeça. Colocou o corpo e a cabeça num alçapão que ela tinha escondido debaixo do chão e voltou para dentro da torre.
Passado o ano voltaram os dois irmãos mais novos ao lugar de encontro combinado. Mas onde estava o irmão mais velho? Esperaram por ele alguns dias, mas nada dele chegar. Foram para casa dos pais, imaginando que o mais velho estivesse lá. Mas lá ele também não estava. O irmão do meio pediu licença ao pai para ir a busca do seu irmão mais velho. O pai concordou e ele foi pelo mesmo destino que o irmão mais velho tinha tomado. Passados alguns dias, chegou em uma ilha. Lá encontrou as três moças e no final de uma semana casou-se com a irmã do meio. Depois perguntou se ela sabia se, há mais ou menos um ano, tinha passado por ali um rapaz com um navio igual ao seu, um leão e uma lança. A mulher respondeu:

- Passou por aqui um rapaz, sim! Casou com minha irmã mais velha, mas foi à "torre da morte"! E quem lá vai não volta! Ele foi e não voltou mais, como já aconteceu com muitos homens.

Então o irmão do meio disse para a mulher:

- Pois eu hei de ir, e hei de voltar!

À noite também pôs a lança entre ele e a mulher, e no outro dia pela manhã foi com o leão até a "torre da morte". Quando bateu apareceu-lhe a velha que tinha matado o irmão mais velho, e, depois de ter prendido o leão com um cabelo da velha, eles também lutaram. Quando o irmão do meio viu que iria perder da velha, gritou para o leão:

- Avança, meu leão!

Mas a velha disse:

- Engrossa, meu cabelão !

E a velha fez como da outra vez: cortou a cabeça do irmão do meio, colocou o no mesmo alçapão debaixo do chão, onde estava o irmão mais velho, e foi para a torre.
Passou um ano, e o irmão mais novo viu que seus irmãos não voltavam. Pediu licença ao pai para os ir procurar. E o pai disse:

- Então você, meu filho, quer fazer como seus irmãos? Quer sumir no mundo e me deixar aqui sozinho?

O rapaz respondeu:

- Deixe-me ir, meu pai, que eu prometo que daqui a um ano vou estar com meus irmãos aqui e ainda trazendo muita riqueza!

O pai deixou. E ele foi pelo mesmo destino que já tinham levado seus irmãos. E chegou na tal ilha. Lá casou com a mais nova das moças. Como o irmão do meio, perguntou a sua mulher se ela sabia dar informações de dois rapazes que por ali deviam ter passado, um há dois anos e outro há um ano, a mulher respondeu:

- Conheci os dois rapazes. Um casou com minha irmã mais velha e o outro com minha irmã do meio. Mas eles foram à "torre da morte" e quem lá vai não volta, e lá eles ficaram.

Então o caçula disse:

- Pois eu irei e voltarei!

E no outro dia, depois de ter dormido e ter deitado a lança entre ele e a mulher; foi até a "torre da morte" com o seu leão. Chegou, bateu à porta e veio à velha abrir. O caçula disse que queria ir ver a torre, e a velha, como das outras vezes, respondeu que para isso tinham primeiro que lutar. O caçula aceitou e a velha também pediu como aos outros, que prendesse o leão com um cabelo dela, pois tinha muito medo daqueles bichos. O rapaz fingiu concordar, mas em lugar de prender o leão deixou o cabelo em cima de um muro. Começou a luta e o caçula percebeu que não ia vencer a velha. Ele gritou para o leão:

- Avança, meu leão!

A velha disse também:

- Engrossa, meu cabelão!

Mas como o leão não estava preso pulou em cima da velha e deu-lhe uma surra daquelas jogando-a no chão. O rapaz ia cortar o pescoço da velha, quando ela pediu:
- Não me mate que devolvo seus irmãos!

O rapaz então não a matou, mas deixou-a presa pelo leão e foi ver a torre. Lá encontrou um grande tesouro. Uma fortuna digna de vários reis. O caçula voltou e mandou que a velha mostrasse onde estavam os seus irmãos. A velha levantou o alçapão e disse para o caçula descer lá ao fundo. Lá ele encontraria seus irmãos, mas o rapaz não quis ir só e fez com que ela fosse na frente. Quando chegou ao fundo, viu muitos homens em monte e para o outro lado as cabeças. Ele então disse à velha:

- Como terei de volta meus irmãos se eles têm a cabeça cortada?

Ela respondeu:

- Vai àquele armário e traz de lá uma panela. A panela está cheia de gordura. Unta com ela o pescoço de seus irmãos. Depois junta as cabeças, que eles ficaram logo curados, mas com uma condição: só cure os seus irmãos!

O rapaz respondeu que curaria todos os homens que ali estavam. A velha ficou com tanta raiva que inchou e explodiu numa nuvem de fumaça restando dela só suas cinzas. O caçula pegou a gordura no armário e untou os pescoços de todos e eles levantaram-se e saíram para as suas terras. O rapaz e mais os dois irmãos pegaram suas mulheres e foram para casa, levando ainda o tesouro. Dividiram a fortuna por quatro. Eles entregaram a quarta parte ao pai. E viveram felizes por muitos e muitos anos.

Adaptação de Augusto Pessôa

A RÃ E O BOI - VÍDEO

A RÃ E O BOI - VÍDEO
Apresentação de Augusto Pessôa no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2010. Clique na imagem e assista a história

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ

A MENINA QUE FAZIA AZEITE DE DENDÊ
Clique na imagem e assista a hitória

UMA APOSTA (VÍDEO)

UMA APOSTA (VÍDEO)
Conto de Artur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

LIVROS LEGAIS

  • GRAMÁTICA DA FANTASIA de Gianni Rodari - Summus Editorial.
  • GUARDADOS DO CORAÇÃO – Memorial para Contadores de Histórias de Francisco Gregório Filho - Editora Amais.
  • FÁBULAS ITALIANAS de Ítalo Calvino - Editora Companhia das Letras
  • DICIONÁRIO DE FOLCLORE BRASILEIRO de Câmara Cascudo - Editora Itatiaia
  • VASOS SAGRADOS de Maria Inez do Espírito Santo - Ed Rocco
  • MEUS CONTOS AFRICANOS - seleção de Nelson Mandela - Ed Martins
  • LENDAS BRASILEIRAS de Camara Cascudo - Ediouro
  • CONTOS TRADICIONAIS DO BRASIL de Camara Cascudo - Ed Itatiaia
  • CONTOS POPULARES DO BRASIL de Silvio Romero - Ed Itatiaia

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)

MARIA BORRALHEIRA (VÍDEO)
Peça teatral baseada no conto popular MARIA BORRALHEIRA com Augusto Pessôa e Rodrigo Lima. Direção Rubens Lima Junior. Clique na foto e assista a um trecho da peça.

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)

FELIZES PARA SEMPRE (RESENHA)
Clique na imagem e veja a resenha do livro FELIZES PARA SEMPRE

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM

QUANDO OS BICHOS AINDA FALAVAM
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias SESC RJ 2009

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)

A MENINA QUE VIROU CORUJA (VÍDEO)
Conto Africano. Clique na imagem e assista ahistória

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Cliuqe na imagem e assista a um trecho do espetáculo

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo.

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)

ERA VIDRO E SE QUEBROU (VÍDEO)
Apresentação do Coral da Ciser - Joinville (2009). Clique na imagem e assita a um trecho do espetáculo

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - SONHO DE MENINA
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação.

O MARIDO FIEL - VÍDEO

O MARIDO FIEL - VÍDEO
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa. Clique na imagem e assista a história.

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)

O JABUTI E A FRUTA (VÍDEO)
conto popular adaptado por Augusto Pessôa. CLIQUE NA IMAGEM E ASSISTA AO VÍDEO

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)

VOU BUSCAR O MEU AMOR (VÍDEO)
Cena do espetáculo A MOURA TORTA. Clique na foto e veja a cena

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Clique na imagem e assista a um trecho do espetáculo em cartaz no teatro do Jockey - Gávea

JABUTI

JABUTI
Apresentação no Simpósio Internacional de contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a um trecho da apresentação

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES - abertura da peça  (VÍDEO)
Apresentação no SESC Niterói - nov 2009 - Clique na imagem e assista a apresentação

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)

A NOITE QUE A LUA SUMIU DO CÉU (VÍDEO)
Clique na imagem e veja um clipe do espetáculo

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)

A DAMA DO LOTAÇÃO (VÍDEO)
conto de Nelson Rodrigues. Adaptação e narração de Augusto Pessôa

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)

O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (VÍDEO)
Peça baseada no conto popular O REI DOENTE DO MAL DE AMORES (2003). Clique na foto e veja um trecho do espetáculo.

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)

TOC, TOC, TOC, TOC (VÍDEO)
Conto de Arur Azevedo. CLIQUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)

MALASARTES E O HOMEM ENGANADO DUAS VEZES (VÍDEO)
Contação de Histórias. Clique na imagem e assista a contação.

MENINA FACEIRA

MENINA FACEIRA
Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no Instituto Moreira Salles - set 2009. Clique na imagem e veja a apresentação.

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)

HISTÓRIA DE ANTANHO (VÍDEO)
NA CASA DE SEU PEDRÃO. Apresentação de Augusto Pessôa e Rodrigo Lima no SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE CONTADORES DE HISTÓRIAS - SESC RJ (2008). Clique na imagem e veja a apresentação

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)

MÚSICA - NA FEIRA DO TEM TEM (VÍDEO)
O Rei Doente do Mal de Amores - apresentação no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a cena.

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)

PARA SEMPRE FIEL (VÍDEO)
Conto de Nelson Rodrigues - adaptação e narração de Augusto Pessôa

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)

SUSPIROS VÃO E VEM (VÍDEO)
Apresentação do espetáculo O REI DOENTE DO MALDE AMORES no SESC Niterói 2009. Clique na imagem e assista a apresentação

MALASARTES! (VÍDEO)

MALASARTES! (VÍDEO)
Peça baseada nas histórias de Pedro Malasartes. Clique na foto e veja um trecho do espetáculo

O JABUTI E A FRUTA

O JABUTI E A FRUTA
Apresentação no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias - SESC RJ 2009. Clique na imagem e assista a história

A MOURA TORTA

A MOURA TORTA
Crítica do espetáculo publicada no JORNAL DO BRASIL

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)

MARIA BORRALHEIRA - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica sobre o espetáculo

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)

MALASARTES - CRÍTICA (IMAGEM)
Clique na imagem e leia a crítica do espetáculo.

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

CRÍTICA DO ESPETÁCULO O REI DOENTE DO MAL DE AMORES

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro

MALASARTES - Histórias de Um Camarada Chamado Pedro
Livro de Augusto Pessôa publicado pela Editora ROCCO (2007)

FELIZES PARA SEMPRE

FELIZES PARA SEMPRE
Livro com adaptações de Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2003)

CONTOS DE HUMOR

CONTOS DE HUMOR
Contos de Artur Azevedo - organização Augusto Pessôa - Editora ROCCO (2008)

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL

CONTANDO HISTÓRIAS NA ABL
CONTANDO HISTÓRIAS NA BIBLIOTECA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS