AUGUSTO PESSÔA - CONTADOR DE HISTÓRIAS - (BRASIL)

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Ator, Cenógrafo, Figurinista, Arte Educador Dramaturgo e Contador de Histórias. Bacharelado em Artes Cênicas (Habilitação em Interpretação e Habilitação em Cenografia) pela UNI-RIO - Universidade do Rio de Janeiro.

A PANQUECA FUGITIVA, O RESMUNGÃO E OUTROS CONTOS NÓRDICOS

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HISTÓRIAS DE NATAL

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livro de contos populares adaptados e ilustrados por Augusto Pessõa - Ed. Escrita Fina (2010)

HISTÓRIAS DE BRUXAS - livro

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

NA FIGUEIRA DO INFERNO - conto popular

Diz por aí, que os diabinhos fazem reunião na figueira do inferno para contar suas maldades. O povo também chama essa árvore de gameleira.
E essa história é mais do que verdadeira e aconteceu com um sujeito que tinha o apelido de Zé Papudo e perdeu a alcunha por causa disso. O Zé não gostava de ser conhecido dessa forma mas não era chamado assim à toa, tinha um papo muito grande embaixo do queixo. Vivia andando pelas matas na sua carroça e vendendo suas mercadorias.
Pois bem, o Papudo vinha de uma viagem longa e passou por uma gameleira galhuda que dava uma sombra muito boa. O sol estava de lascar e o Zé estava cansado que doíam os ossos. Ele resolveu parar e tirar um cochilo embaixo da árvore. Isso aconteceu numa quinta-feira. Exato o dia que os diabinhos se juntam na galharia dessa árvore para cantar samba e contar suas maldades. Bom, foi o Zé Papudo deitar e fechar os olhos que deu, certinho, meio-dia. Ele começou a ouvir um barulho esquisito, eram os danados, assim como um bando de macacos, pulando de galho em galho, cantando, e, de vez em quando, fazendo uma parada para contar as suas maldades.
Na conversa deles cada um se vangloriava mais pelas maldades cometidas. Um dizia:

- Eu fiz um velho levar um tombo que deixou ele todo torto!

Outro se gabava:

- Eu sujei toda a roupa que a lavadeira tinha acabado de lavar!

E um terceiro continuava:

- E eu botei fogo no rancho de uma velha!

E todos iam falando e rindo de suas malvadezas. Entre uma história e outra cantavam um sambinha que era assim:

- É segunda feira, é terça feira, é quarta feira, é quinta feira, é sexta feira... É segunda feira, é terça feira, é quarta feira, é quinta feira, é sexta feira...

Era só isso a música. O sábado e o domingo eles não cantavam. Eles não gostam desses dias. Ninguém sabe direito porque.
E o Zé Papudo lá embaixo, meio dormindo, meio acordado, foi ouvindo a música e cantando também:

- É segunda feira, é terça feira, é quarta feira, é quinta feira, é sexta feira... É segunda feira, é terça feira, é quarta feira, é quinta feira, é sexta feira...

Bom, nessa conversaria e nessa cantoria, um deles deu com o pobre do Papudo deitado e falou para os outros malvadinhos:

- Olhem aquele cabra lá em baixo! Cantando igual à gente! Que maldade vamos fazer com ele?

Outro diabinho, respondeu logo:

- Ele está cantando direito, mas a gente tem que fazer uma maldade! O camarada é papudo! Deve gostar daquele papo! Vamos tirar o papo dele!

Todos concordaram. Nesse momento o viajante abriu os olhos e viu aquele monte de diabinhos em cima da árvore. Com muito medo, o pobre nem se mexia pra ver se os monstrinhos iam embora. E os sujinhos continuavam:

- Vamos arrancar esse papo dele!!

O coitado não teve tempo nem de piscar. Os diabinhos pularam em cima dele, arrancaram o papo do homem e plaft!. .. pregaram a bola no tronco da gameleira.
O Zé, que já não era mais papudo, ficou com tanto medo que desmaiou. Quando voltou a si não tinha mais nenhum diabinho na árvore. Só o papo grudado no tronco da gameleira comprovava o que tinha acontecido. Sem ser mais papudo, o Zé continuou sua viagem, feliz da vida.
Até que passou pela venda do sujeito que colocou o apelido nele. O tal homem tinha também um papo, mas era menor do que o do ex-papudo. Quando o comerciante viu o Zé ficou impressionado:

- Mas olhe seu Zé Papudo! Cadê o papo?

E o Zé respondeu:

- Zé Papudo não! Que eu não tenho mais papo!

E o outro, curioso, quis saber:

- E como isso aconteceu?

E o Zé contou toda história que tinha acontecido com ele: contou da árvore, dos diabinhos, da cantoria. Explicou tudo direitinho e foi embora na sua viagem.
O comerciante ficou com uma vontade danada de perder seu papo também e resolveu esperar a outra quinta-feira para ir lá na tal árvore.
E foi.
Estava lá deitado debaixo da figueira, quando ouviu a barulheira dos diabinhos. Exatamente como o Zé tinha contado. Daí a pouco, começou a cantoria:

- É segunda feira, é terça feira, é quarta feira, é quinta feira, é sexta feira... É segunda feira, é terça feira, é quarta feira, é quinta feira, é sexta feira...

O comerciante ficou tão animado com aquilo e, achando que estava ajudando, começou a cantar:

- E sábado e domingo também! E sábado e domingo também!!

Os danadinhos pararam de cantar e olharam para baixo. Ficaram com muita raiva e um deles falou assim:

- Olha lá! Outro papudo! Mas esse é abusado! Vem aqui cantar e atrapalhar a gente!! Fica cantando tudo errado!!O que é que vamos fazer com ele?

E um outro respondeu:

- Vamos lhe dar outro papo pra ver se ele aprende a cantar direito! Pega o papo do outro e gruda nesse desgraçado!

Foi uma gargalhada geral. Os diabinhos pularam em cima do comerciante, arrancaram o papo que estava colado na árvore e plaft! Colaram em cima do papo do infeliz.

- Toma safado! Aprende a não se meter onde não é chamado! Se não sabe cantar, não cante!

Falaram isso e foram embora. E o comerciante ficou com dois papos em vez de um.
 
Conto Popular adaptado por Augusto Pessôa

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