Era setembro. João, muito falador e brincalhão, com mais oito companheiros ajudava a preparar mais uma de suas pescarias para as barrancas do São Francisco.Ficariam acampados por 15 dias às margens do rio, em uma fazenda próxima a Pirapora (aproximadamente 350 Km de Belo Horizonte), que por diversas vezes os havia acolhido.
A “jardineira” ficou lotada. Barcos, motores, iscas, muito sal para salgar os peixes, e todas as tralhas de cada um.
Dois dias de viagem, muitos pneus da “jardineira” furados e alguns problemas mecânicos, chegaram finalmente ao seu destino.
A recepção do grupo não poderia ser melhor. Vinham de Belo Horizonte, a capital, e os moradores da região logo apareciam no acampamento, pois traziam muitos presentes para eles, inclusive cobertores e alimentos. Para a molecada não havia coisa melhor.
No dia seguinte, ficaram por conta de montar acampamento, preparar os barcos, organizar toda a estrutura que trouxeram e descansar para começarem a pescar no próximo dia. À noite, fogueira, viola, e muita comida (sabiam que a molecada estaria ali para dividir com eles).
João, depois de umas e outras, resolveu amedrontar as crianças com uma história de arrepiar. Seus companheiros também ouviam e fingiam ser tudo verdade, evitando risos para não estragar a brincadeira.
Contava João que determinada vez saiu para pescar sozinho à noite. Noite de lua nova, rio silencioso e muita escuridão, uma pequena lanterna à mão, conseguiu apoitar embaixo de uma enorme árvore, uma ingazeira. Ouvia o barulho de alguns animais, provavelmente macacos Bugios, iscou seu anzol com um pedaço de minhocuçu, e sentou-se no barco. De repente, começou um vento forte, a água do rio encrespou, os galhos da árvore começaram a se curvar e o barco começou a balançar. A coisa começou a ficar complicada, com a ventania ficando ainda mais violenta e jogando água para dentro do barco. Resolveu ir embora, recolheu rapidamente a linha lançada ao rio e foi retirar a poita. Quando ligou a lanterna para pegar a corda da poita, viu uma enorme mão peluda segurando-se a ela. Era um caboclo d’água.
A molecada atenta e com os olhos arregalados, prestava atenção a tudo que João dizia e à forma como gesticulava.
Desesperado, pegou um facão e desfechou um golpe certeiro naquela coisa. Ouviu um imenso urro, a corda se partiu e um dos dedos peludos acabou caindo dentro do barco. Ligou rapidamente o motor, e com o coração disparado, livrou-se rapidamente daquela situação voltando para o rancho.
Os companheiros de João mal estavam conseguindo se conter em gargalhadas, mas a molecada ficou apavorada. Foram todos para suas casas e a turma de pescadores pode regozijar-se com mais uma do João.
A pescaria estava ótima. Muitos peixes e muita diversão.
Certo dia, já bem à tardinha, João resolveu sair sozinho com o barco.
Motor ligado, foi subindo o rio passando próximo à margem.
A escuridão já se fazia presente. Apoitou embaixo de uma árvore, iscou um anzol com um pedaço de minhocuçu, lançou a linha no rio e sentou-se no barco. Ouvia o barulho de animais. Um forte vento começou de uma hora para outra, o rio começou a ficar cheio de marolas e o barco começou a balançar. Foi neste instante que João começou a prestar atenção na situação que estava envolvido. Tudo que acontecia ao seu redor parecia exatamente como um filme da estória que havia inventado para a molecada. A árvore era uma ingazeira, o barulho era de Bugios e as demais circunstâncias eram coincidentes.Recolheu rapidamente a linha lançada ao rio, puxou a poita, ligou o motor e saiu em disparada pensando: Eu hein!! Sei lá!
Causo do João narrado pelo pescador Carlinhos (Minas Gerais)

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