Uma vez uma chachatatutu pôs três ovos no ninho e todos os dias, enquanto ela saía, um camundongo que vivia num terreno próximo, vinha sorrateiramente e tentava comer os ovos. Dos três ovos da ninhada dois já tinham desaparecido na boca do camundongo. A pobre chachatatutu, desesperada, foi ter com a fênix para reclamar justiça contra o camundongo.
- Oh, fênix, - disse ela tristemente - rainha de todos os pássaros! Um camundongo malandro devorou dois dos três ovos da minha ninhada. Eu já perdi dois passarinhos e por isso venho pedir vingança.
A fênix não se dignando sequer a incomodar-se por uma pequeníssima chachatatutu, não muito maior que um polegar, disse-lhe asperamente:
- Não sabe quanto eu estou ocupada durante todo o dia? Como se atreve a importunar-me com tal ninharia? E olha, são as mães quem deve olhar pelos seus filhos! Se não é capaz de cuidar deles, quem o vai fazer? O seu dever é velar pela sua família!
A chachatatutu indignada pela dureza da fênix exclamou com um ar de desespero:
- Se venho falar é porque você é a rainha dos pássaros. Mas me desprezas, tomando a minha desgraça por uma insignificância. Talvez faça mal. Às vezes uma ninharia pode ser a causa duma grande desgraça. Se isso um dia acontecer não me ponha à culpa!
A fênix não prestou nenhuma atenção ao que ela dizia, limitando-se a responder como que distraidamente:
- Sim... sim... Pois, pois....
A chachatatu receando que a fênix não tivesse ouvido bem disse:
- Porque é que você está falando "sim... sim..."? Se um dia acontecer pra você uma grande desgraça, por causa de uma ninharia, não me punha a culpa! A culpa será só sua!
A fênix mais uma vez não ligou ao que ela dizia e continuava murmurando com impaciência:
- Sim... sim... Pois, pois....
A chachatatutu vendo que não fazia ali mais nada, voltou sem esperança para o seu ninho. Depois num acesso de cólera, pegou um galho pequeno, fez dele uma flecha, empoleirou-se num ramo duma árvore e esperou, com os olhos bem abertos, à volta do camundongo assassino.
Pouco depois, o camundongo apareceu para comer o último ovo. A chachatatutu, sufocando de raiva lançou a flecha com toda a força, direitinha ao olho do camundongo. A dor foi tão forte que este se rebolou dando voltas e mais voltas, aos gritos. Cego, foi "mergulhar" mesmo nas narinas dum leão que fazia a sesta à beira-mar. Este acordando bruscamente e sem saber o que estava acontecendo, saltou desesperadamente e mergulhou na água. Na água, um dragão nadava preguiçosamente. Quando viu assim de repente, o leão cair perto dele, elevou-se subitamente no ar com medo de ser devorado, e sem querer esbarrou no ninho da fênix, quebrando o ovo que lá se encontrava. A fênix, louca de raiva, injuriou o dragão:
- Seu idiota! Não sabe que nós, as fênix, não podemos pôr senão um ovo por ano e que temos somente um filho? Porque é que voa assim como um louco para fora das águas e derruba o meu ninho e quebra o meu ovo?
- Não sou eu quem tem a culpa, fênix. - respondeu o dragão. - Enquanto eu me banhava tranqüilamente um leão saltou para a água para me devorar. Então, naturalmente, eu voei para o céu. Derrubei o seu ninho por acidente; a culpa não foi minha! Vá falar com o leão que saltou sobre mim.
Então a fênix foi procurar o leão.
- Ah, sábia fênix, - disse o leão - não me amaldiçoe. Dormia eu sossegadamente na praia, quando, de repente, um camundongo entrou nas minhas ventas. Com a dor, saltei para o rio. Como vê à culpa não é minha; é do camundongo. Ele é quem merece a sua censura, não eu.
E assim a fênix foi procurar o camundongo.
- Ah, nobre fênix, - disse timidamente o camundongo - a culpa não foi minha, mas da chachatatutu. Passeava eu ali pela grama quando ela me feriu no olho com uma flecha. Com a dor cai no primeiro refúgio que encontrei e por acaso foi nas ventas de um leão. Toda a culpa é da chachatatutu. É ela quem deve ser castigada.
Nada mais restava à fênix senão ir falar com a chachatatutu. E a pequena ave respondeu:
- Oh, fênix, eu bem tinha dito. Você me desprezou não querendo nem ouvir o que eu dizia, porque tenho um corpo pequeno, asas curtas, poucas forças e nenhuma beleza. Tomou o meu desgosto por uma bagatela dizendo que são as mães quem deve velar pela sua ninhada e que não devia aborrecer a sua nobreza. Porque é que não olhou pelo seu ninho e anda por aí a arranjar aborrecimentos com todo o mundo? O camundongo pode comer os meus ovos, porque é isso uma insignificância, mas quando o dragão derruba o seu ninho e quebra o seu ovo, então isso já é um desastre! É essa a sua justiça? Não avisei que se um dia um pequeno nada ocasionasse um desastre não culparia a mais ninguém senão a você mesma? Porque é que vem então me aborrecer?E a fênix, envergonhada sem dizer mais nada, voou pelos ares de crista baixa.
Conto Tibetano



1 comentários:
Muito bom este seu blog. Divertido,interesante e cultural. Além do mais é um verdadeiro painel de cores e figuras. Gostei mesmo. Passei rapidamente,mas vou voltar com mais tempo para ler as estórias e causos. Também sou da área literária e o meu blog defende a escrita,como comunicação.
Serei seu seguidor de agora em diante.
Abraços. Antonio,um pernambucano morando em Goiânia,GO.
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