Era uma vez um Rei e uma Rainha que não eram felizes porque não tinham filhos. Todo dia, a Rainha sentava e suspirava, até que o Rei vinha perguntar: - O que está errado, minha querida?
- Ah, você sabe! - ela respondia e suspirava novamente - Se tivéssemos filhos, eu poderia abraçá-los quando eles fossem bons, e repreendê-los quando eles fossem maus! O que seria muito divertido!
Então o Rei suspirava e concordava com a Rainha.
Um dia, a Soberana estava sentada e suspirando no jardim, quando a mulher do jardineiro veio até ela.
- O que está errado, Majestade?
- Ai, você sabe! - disse a Rainha suspirando novamente.
- Bem – disse a mulher – talvez eu tenha algo que possa ajudar!
Do bolso do avental ela tirou uma bolsinha e de lá a mulher pegou uma semente que tinha a forma de um bebê dormindo enrolado numa manta.
- Plante essa semente hoje quando a lua cheia estiver no seu máximo! Regue com água usando só a mão direita. Não use a mão esquerda ou você vai se arrepender!
Naquela noite, quando a lua cheia estava no seu ponto mais alto, a Rainha foi para o jardim e plantou a semente. Ela pegou um pouco de água com a mão direita e regou o que tinha plantado. Mas ela esqueceu o que a mulher do jardineiro disse e regou também com a mão esquerda.
Na manhã seguinte, a Rainha correu até o jardim para ver o que tinha acontecido. Lá, no lugar das sementes, ela encontrou uma árvore já grande com apenas dois ramos longos. Em cada ramo uma única flor. A flor do lado direito era linda. Amarela com riscos dourados. A flor do lado esquerdo era estranha. Vermelha com riscos negros. A Rainha cuidou dessa árvore. Ela viu as pétalas caíram das flores e os frutos começaram a crescer. Do fruto da flor amarela cresceu uma garota adorável com um vestido de princesa e brilhantes cabelos dourados. A criança abriu os olhos e disse de forma suave:
- Pode me colher, mamãe! Já estou madura!
A Soberana colheu a filha da árvore.
- Eu sou sua mãe! - disse a Rainha – Que maravilha! Eu vou chamar você de Bela Flor!
Só então, a criança do fruto da flor vermelha abriu os olhos. Mas era muito diferente da outra. Era estranha. Usava uma roupa esquisita. Pareciam trapos. Os cabelos eram ruivos e emaranhados. Ela carregava uma grande colher de madeira e estava montada num bode. A criança gritou alto:
- Pode me colher, mamãe! Já estou madura!
A Soberana colheu da árvore a outra filha.
- Eu sou sua mãe! - disse a Rainha – Que maravilha! Tão estranha! Eu vou chamar você de Florisbela!
- Florisbela! Florisbela! - gritou a criança.
A Rainha estava feliz. Tinha agora duas filhas: Bela Flor era boa com um coração de ouro. Assim, a Rainha poderia abraçá-la por todas as bondades que fazia. E Florisbela estava sempre aprontando, por isso a Rainha vivia repreendendo suas atitudes.
As duas irmãs se adoravam e viviam sempre juntas.
Um dia, as meninas foram fazer piquenique em um campo. De repente, de um bosque vizinho veio um barulho terrível.
- O que é isso? - perguntou Bela Flor
- São duendes! Meninas duendes! - respondeu Florisbela.
Então, do nada, dezenas de meninas duendes saíram do bosque. Elas gritavam e corriam como loucas. Eram monstros horríveis com rabos compridos e narizes pontudos. Foram pra cima das irmãs de uma forma ameaçadora.
- Bela Flor, proteja-se! - gritou Florisbela – Vou cuidar disso!
A menina de cabelos ruivos montou no seu bode e foi direto para cima das duendes. Ela foi batendo nas meninas com sua colher e as pestinhas fugiam gritando de volta para o bosque.
Enquanto isso, Bela Flor ficou encolhida e assustada. Até que ela levantou um pouquinho a cabeça para ver o que estava acontecendo. Do nada, surgiu uma duende que arrancou a cabeça de Bela Flor. Depois a pestinha arrancou a cabeça de um carneiro. Colocou a cabeça de carneiro na menina de cabelos dourados e fugiu com a sua cabeça.
Quando Florisbela expulsou todas as duendes, voltou e viu sua irmã.
- Oh, não! O que fizeram com você? Isso não vai ficar assim! Vamos buscar a sua cabeça!
Assim, Florisbela e a irmã voltaram para o palácio. A menina ruiva pediu ao Rei para preparar um navio. Quando ficou pronto, ela levou a irmã a bordo e o Monarca perguntou: - Você não quer uma tripulação? Não quer marinheiros?
- Nós não precisamos deles! - gritou Florisbela.
Sem ajuda de ninguém, a menina puxou a âncora e zarpou.
As irmãs navegaram por um longo tempo, até que chegaram a terra dos duendes.
- Fique aqui! - disse Florisbela para Bela Flor.
Então ela foi para a terra com seu bode e galopou até o castelo dos duendes. Chegando lá, a menina viu a cabeça de Bela Flor pendurada numa janela. Florisbela bateu com força no bode e o bicho foi disparado em direção a janela. Os dois passaram como um raio e a menina arrancou da janela a cabeça da irmã. Então ela voltou numa disparada maior ainda para o navio. Mas os duendes viram o que ela fez e saíram numa perseguição terrível atrás de Florisbela. Eles alcançaram a menina e aí se deu uma batalha incrível: sozinha, a menina ruiva enfrentou os duendes. Com sua colher de madeira e pancadas fortes ela foi arrancando as cabeças de todos os duendes. Foi derrotando os pestinhas até não sobrar mais nenhum. Florisbela voltou para o navio. Tirou a cabeça de carneiro da irmã e guardou. Depois colocou a cabeça verdadeira em Bela Flor que suspirou aliviada e disse:
- Você é maravilhosa!
As irmãs voltaram para casa. O Rei e a Rainha ficaram muito felizes. A mãe deu um grande abraço em Florisbela. A menina colocou no carneiro a sua cabeça.
No dia seguinte, Florisbela disse para Bela Flor:
- Irmã, está na hora de irmos embora!
Então elas subiram a bordo e partiram. Foram para um país distante. As pessoas do lugar estavam procurando um novo Rei ou Rainha, porque o velho Monarca tinha acabado de morrer.
Assim que o navio das irmãs atracou, o próprio Primeiro-Ministro veio a bordo. Quando o homem viu Bela Flor arregalou os olhos e declarou:
- Achamos a nossa Rainha!
Mas a menina de cabelos dourados respondeu:
- Oh, não! Minha irmã é corajosa e nobre! Ela que deve ser a Rainha!
O Primeiro-Ministro olhou para a desgrenhada Florisbela que estava montada em seu bode e disse:
- Ela não pode ser a Rainha!
- Por que não? - gritou Florisbela.
- Bem... - respondeu o Primeiro-Ministro – uma Rainha não pode montar num bode velho e sujo!
O primeiro-ministro olhou novamente e viu que Florisbela montava um lindo cavalo branco. Mas o homem continuou:
- Bem... mas uma Rainha não pode estar vestida em trapos e carregar uma colher de madeira!
E a ruiva perguntou:
- Você tem certeza do quê está dizendo? Olhe de novo!
O primeiro-ministro olhou novamente e viu que Florisbela vestia um terno elegante, ricamente decorado. Nas mãos um cetro de prata com um diamante brilhante na ponta. Mas o homem ainda insistiu:
- Bem... mas uma Rainha não pode ter o cabelo desgrenhado e sujo!
A ruiva perguntou:
- Você tem certeza que meu cabelo é assim? Olhe de novo!
O primeiro-ministro olhou novamente e viu que Florisbela estava perfeitamente arrumada, com suaves e brilhantes cabelos vermelhos. Completamente encantado por tanta beleza o Primeiro-ministro declarou:
- Então você pode ser a Rainha!
Foi feita uma grande festa. Florisbela se tornou Rainha e governou com sabedoria o país com a ajuda de sua irmã. Mas sempre que alguém fazia um besteira, o rico cedro se transformava novamente em colher de madeira e Florisbela batia com força.
Conto popular adaptado por Augusto Pessôa

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